sábado, 29 de junho de 2013

RELATOS - a minha primeira Maratona

Champs Élysée e o Arco do Triunfo ao fundo
Fernando Dantas - 62 corridas - 5 internacionais

Compartilho com vocês aqui toda a emoção da minha primeira maratona, e aproveito para falar um pouco sobre como essa experiência entrou na minha vida. O texto está um pouco longo, mas vale a leitura!

7 de abril de 2013. Sob o frio impiedoso de Paris, desço as escadas da estação Saint-Cloud às 8h, em direção à estação Roosevelt. Nos vagões, mais corredores com a expressão de ansiedade pela primeira maratona ou os mais experientes com o medo da derrota, sei lá. Mas sei que estava lá e não poderia falhar. Quando subo as escadas e saio próximo à largada, o frio na barriga é incontrolável. Helicópteros de TV rondavam a multidão. Me dirijo ao meu local de largada que era para 3h40, muita pretensão a minha, mas peguei esta pulseira na retirada do kit sabendo que o objetivo era completar a prova em 4h.
Bom, um aquecimento rápido com alongamento, mas de nada adiantou. O termômetro da Champs Élysée marcava 4°C, e estávamos na primavera. Minha mulher, Renata Gonçalez, me fotografa desejando-me uma ótima corrida, e me beija, como não poderia faltar. Entro na minha baia e me misturo aos milhares de corredores. Atrás está o Arco do Triunfo, onde será a chegada. O locutor num francês frenético e que pouco compreendi dá a largada. Sabia que ali mudaria completamente a minha vida e a forma de pensar, mas como tudo começou?
Em janeiro de 2012, não sei por que, me inscrevi em um biatlo na Estrada Velha de Santos, imaginando que seria fácil completar os 16 km de bicicleta e mais 5 km de corrida. Até que na bicicleta foi moleza, mas quando começou o trecho de 5 km de corrida, a perna travou. Dali em diante, decidi quebrar esta barreira e treinar só corrida. Dia 12 de fevereiro do mesmo ano estreei na provinha de 8 km na praia da Enseada, no Guarujá. Pronto, dali em diante tudo mudou, depois de diversas corridas, decidi em 11 de outubro (dia em que completei 36 anos) que correria uma maratona, e o presente foi a inscrição para o dia 7 de abril de 2013, data da Maratona de Paris. Muitos me questionaram, dizendo que não estava preparado. É uma meta muito difícil, mas, para o meu orgulho, seria apenas mais uma dificuldade.

Mas voltamos a 7 e abril de 2013. Às 9h20, faço a minha tradicional oração e cruzo o pórtico de largada da 37ª Maratona de Paris. Sabia que a minha vida mudaria, mas o  sol abrilhantava e o céu azul coloria a minha obsessão de terminar a prova sem caminhar. Fiz tudo o que havia treinado nos "longões", passar pelo primeiro
Renata Gonçalez e Fernando Dantas
km com um passe de 6 min/km e depois ir diminuindo aos poucos o meu tempo. Passamos pelo Museu do Louvre em direção à praça da Bastilha, pouco depois escuto "olha lá, é brasileiro!", olho para trás e vejo um pequeno grupo de brasileiros na calçada, logo penso: como sabem que sou brasileiro? Distração a minha, pois estava vestindo uma camisa térmica amarela, calça legging preta, luva preta kaleng (leia o post neste blog sobre a tribo Kalengin), tênis Asics série Nova York (maratona que não aconteceu devido ao furação Sandy) e uma simples regata mais de um peso enorme, a mesma que o Marilson Gomes dos Santos usou nas Olimpíadas de Londres, com um Brasil estampado na frente, tudo para servir de motivação e seguir em frente. E estava dando certo, porque escutei "olha lá, é Brasil!", por quase todo o percurso.


Depois de passar por lugares muito bonitos da Cidade-Luz, e de ver todo tipo de corredores (velhos, velhas, novos, fantasiados, um casal de japoneses com véu e grinalda, talvez celebrando a lua de mel em alto estilo), depois de vários quilômetros, chegamos em uma  avenida que não lembro o nome, mas que margeia o Rio Sena e de longe se avista a Catedral de Notre Dame e a Torre Eiffel e que logo mais passaríamos ao seu lado em direção ao parque dos Príncipes.
Comemoração na Torre Eiffel
Mas pouco antes, passo por um grupo estilo Olodum, com roupas de capoeiristas. Não preciso nem falar quando me viram! Esqueci de comentar, por todo o trajeto, bandas e mais bandas divertiam todos que passavam, enfim, entramos no parque dos Príncipes que abriga o estádio do Paris Saint Germain e Roland Garros, e para meu desespero, o temido km 30, onde dizem ser o muro de todo corredor, a hora da verdade, no qual se decide se continua ou se desiste de vez. 
Por sorte e fé no que tinha prometido a mim mesmo, o km 30 não abalou os meus sentimentos, mesmo com o corpo dolorido e pernas inchadas, mesmo usando meia de compressão (que naquela altura não estava adiantando muita coisa), levei seis saquinhos de gel de carboidrato e só restava um, guardei para os últimos quilômetros só de garantia, o pior trecho foi após o km 35, quando pegamos uma reta ainda no parque, várias ambulâncias, massagistas, voluntários, bombeiros e para quê todo aquele aparato?

Para quem assistiu a "O Resgate do Soldado Ryan", logo nas primeiras cenas do dia D, quando acontece o desembarque das tropas aliadas na Normandia e os soldados alemães metralham sem piedade, e começam a cair soldados sem vida, enquanto outros corriam num desepero sem fim, pois foi esta a minha sensação naquele momento, muitos começaram a cair aos gritos com cãibras ou sei lá o quê, entenderam por que todo aquele aparato? A organização sabe que ali é o ponto
A tão sonhada conquista
chave. Não poderia deixar de me envolver com aquela cena, pedi a Deus e ao mito esquecido Abebe Bikila (leia no post deste blog sobre este herói etíope) energia suficiente para cruzar a linha de chegada.


Algo aconteceu, não poderia decepcionar a minha família, minha mulher e os amigos, as pessoas que cercavam todo percurso, as mãozinhas das crianças que pedem para bater nas delas, todo o treinamento e dedicação para este dia, não poderia desistir de forma alguma, logo depois de todos estes pensamentos, fizemos uma curva, vi dois amigos carregando um ao outro como um soldado ferido, eles não falavam francês, talvez fossem mais um estrangeiro como eu neste desafio, depois um grupo de bombeiros se revezando como guias de uns deficientes visuais, caramba, tudo ao mesmo tempo! Não vou desistir. pronto, cheguei nos 40! Só faltam 2 km e 195 metros, agora NADA vai me fazer parar, só se o coração pifar.

Pronto, agora falta pouco, menos de 500 metros, já vejo o pórtico de chegada, ouço a música, o locutor frenético, e o povo aplaudindo todos que passavam, dei um grito, o mais alto que as minhas forças permitiram "eu sou maratonista", repeti várias vezes, as lágrimas escorriam chorei mesmo, dane-se! 3h35 nem imaginava que faria um tempo tão bom assim, passo pelo pórtico de chegada, doía cada músculo do meu corpo, mas a emoção anestesiou tudo isso, recebi uma capa de chuva para me esquentar,  não via a hora da medalha, recebi a camiseta escrito
Em Roma na placa de Abebe Bikila
finisher, e uma senhorinha (lembrei da minha mãe na hora)

colocou a tão sonhada medalha no meu pescoço, abracei-a tão forte e falei vários obrigados, certeza de que ela não entendeu nada, mas valeu, sigo em direção ao Arco do Triunfo para encontrar a minha mulher onde combinamos o reencontro, nos beijamos e fiquei estirado no chão por alguns minutos para digerir o meu feito. 

Uma semana depois estava em Roma, diante da placa em homenagem a Abebe Bikila para agradecer a minha conquista, e para quem acha que parei por aí, agora estou em treinamento para realizar uma UltraMaratona, bom logo mais falo como foi!




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