sábado, 20 de julho de 2013

À SOMBRA DO "DOPING"

A primeira vez que me lembro de ter ouvido o termo “doping” foi quando Ben Johnson perdeu sua medalha de ouro após a Olimpíada de Seul, em 1988. Minha sensação é a de que escuto falar sobre esse assunto desde que comecei a acompanhar esportes.
Ao fazer a pesquisa para esse texto, descobri que o termo tem origem em uma palavra holandesa, nome de uma bebida alcoólica usada por guerreiros para aumentar a força.  E mais: os gregos antigos já utilizavam substâncias que os faziam se sentir mais fortes.
Minha percepção era correta, o doping é tão velho quanto a atividade física. Está tudo lá na página oficial da WADA (Agência Mundial Anti-Doping). Mas se ainda resta dúvidas ao leitor, tem mais: o primeiro registro de um caso de doping em uma competição oficial foi em 1904, quando Thomas Hicks venceu a maratona nos Jogos Olímpicos comendo ovo cru, administrando injeções de estricnina e doses de conhaque que ele tomou durante o percurso. A primeira punição só seria aplicada em 1928, pela Federação Internacional de Atletismo (IAAF).
Agora, em 2013, mais uma vez a IAAF entrou em ação e suspendeu Asafa Powell e Tyson Gay, ambos da elite dos 100 metros rasos, donos de recordes e marcas estupendas. Isso depois do maior escândalo da história do ciclismo culminar, além da vergonha pública, na cassação dos sete títulos da volta da França do fajuto heptacampeão Lance Armstrong.
Vemos uma overdose de notícias de atletas dopados. É verdade que para diminuir a quantidade de casos já há alguns especialistas que defendem a liberação de alguns estimulantes, segundo eles utilizados pela totalidade de atletas (nada a ver com esteroides e hormônios de crescimento). Mas a despeito dessa  ressalva, a constância dos casos de doping me levou a pensar se o mundo não vive em meio a uma filosofia dopante que contamina não só o esporte de alto rendimento. É uma linha de pensamento que deixou de ser uma via paralela, um caminho clandestino e se tornou banal. Quem sabe, dominante.
As frutas no supermercado estão todas dopadas com agrotóxicos. São exuberantes, redondinhas, sem marcas. E sem gosto. A mulheres da TV tem peitão, tem coxão, bocão. E, estranho, vozeirão. Tudo no aumentativo. Sintoma de consumo combinado de silicone, plástica e hormônio. É o doping estético.
As músicas também estão dopadas.  Qualquer um, até quem não gosta, é capaz de sair cantando a mais nova moda após tantas injeções de jabá nas rádios e de aparições dos mesmos artistas na TV. E os filmes? Até mesmo os mais fraquinhos, sem qualquer massa encefálica, são inflados para durar, ao menos, uma trilogia.
Já há quem diga que até as drogas vem sofrendo doping invertido. Elas já chegam ao consumidor com menos substâncias ativas. Haverá o dia em que alguém vai se drogar e passar limpo pela punição porque foi enganado pelo fornecedor.
O mundo está dopado. Não para alcançar o êxtase da vitória. Nem para expandir a consciência. Tampouco pelo nobre direito de se defender da dominação, como na história dos heróis gauleses Asterix e Obelix, que tomavam uma poção mágica para ganhar força sobrenatural capaz de derrotar os exércitos tiranos de Roma.
E se a cultura do doping permeia quase tudo, o esporte fica ainda mais órfão de reflexão.  Claro que a ninguém cabe fazer o papel da justiça. Mas como as regras de doping são um tanto obscuras, fica mais simples para a maioria da imprensa esportiva se limitar ao factual. Principalmente quando se trata de um jornalismo que mistura puro entretenimento a doses de omissão. Porque assim fica mais fácil dopar também o telespectador.
Mas será que entre tantos casos de doping  já não chegamos ao limite? Quem são os responsáveis? Treinadores profissionais? Treinadores da base? Confederações? Todos? Ninguém ainda pensou se o erro não está na formação desses atletas? Os responsáveis por jovens esportistas são capazes de ensinar que a vitória a qualquer custo do atleta é a derrota do ser humano?
As poucas respostas que ouvimos são parecidas: “contaminação cruzada” ou “culpa do suplemento alimentar”. Enganos acontecem, é claro. Mas soa no mínimo curioso tantos se imaginarmos que atletas desse nível são cercados de especialistas de todos os tipos. Inclusive, por médicos que conhecem as regras antidoping e as substâncias proibidas.
No meio de perguntas sem respostas, todos parecem beber do conformismo, sentimento tarja preta que se espalha sem controle pela sociedade. Nos bate-papos do dia a dia,  um raciocínio começa a ganhar corpo (se já não corre ao senso comum): atletas de alto rendimento participam de duas provas simultâneas: a que diz respeito a sua modalidade e  uma outra competição contra a fiscalização antidoping. Nessa linha, não se demora a chegar à conclusão: todos estão dopados. O campeão é aquele que ganha e também é hábil para escapar do exame. Sob o risco de ser tachado ingênuo, ainda prefiro não acreditar nisso.
O doping tira o tesão do esporte  e acaba com a paixão que tanta falta já faz em mundo cada vez mais pragmático. Mais brochante do que o efeito colateral que pode atingir os atletas é a perspectiva de que a única ação que se possa tomar é a conversa de sempre: aumentar o controle e a fiscalização. O próprio presidente  do COI, o belga Jacques Rogge, viu um lado positivo – e não era o teste dos velocistas – nos casos mais recentes. Salientou que os últimos flagrantes demonstram a “eficácia” do sistema de controle de doping fora da época de competições.
Como os vírus de computadores, os sistemas de segurança ou leis contra corrupção, as autoridades esportivas ficam a correr atrás do rabo em uma disputa em que a indústria da falcatrua parece estar sempre um passo a frente das medidas  de controle. Basta dizer que o método de “trocar o sangue” utilizado por Lance Armstrong é utilizado desde a década de 70.
Assim, a história de doping nunca termina. Quanto mais eficientes são os recursos da fiscalização, mais longe estamos de solucionar o problema. Afinal, na falta de se produzir seres humanos mais honestos, o mundo anabolizado prefere fingir que está saudável. E a gente prefere fingir que acredita.
* Rodrigo Focaccio escreve no blog Cultebol