sexta-feira, 20 de setembro de 2013

DESAFIO 600K (São Paulo-Rio de Janeiro) - por Ana Paula Alfano

Há alguns anos trabalhei no jornal Diário de São Paulo, onde conheci a editora Ana Paula Alfano. Eu, que na época não corria, não sabia que ela era uma corredora nata. Tempos depois saí do jornal e comecei a praticar o pedestrianismo e a ser leitor voraz de revistas sobre o tema, e foi por meio dessa leitura que descobri que a Ana Paula escreve para a revista Runner's World. Como hoje tenho este blog, a convidei para participar e ela nos presenteou com esta matéria que foi publicada na revista Época sobre a primeira edição do Desafio 600K em 2009 (São Paulo-Rio de Janeiro). Vale muito a pena a leitura: 


por Ana Paula Alfano 
(revista Época)

Arquivo Pessoal
Ana (esq.) ao lado do maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima e Yara Achoa, de sua equipe
Quinta, às 5h da manhã, enquanto você, leitor, provavelmente ainda estava dormindo, 240 malucos largaram do Obelisco do Ibirapuera, numacorrida ainda mais maluca do que eles. Quatro dias de estrada, areia e trilhas no meio do mato e 600 quilômetros de muito suor até o destino: aPraia de Ipanema, no Rio de Janeiro, pela Rio-Santos. Até quatro anos atrás, eu estaria aí deste lado, apenas lendo esta matéria e imaginando "como tem gente doida neste mundo", sem entender o que leva uma pessoa a encarar um desafio como este. Pois hoje faço parte do time dos malucos. Neste exato momento, estou em algum ponto entre São Paulo e São Sebastião, correndo ou enfurnada numa van, com outros 12 corredores da minha equipe, todos colegas de imprensa, esperando a minha vez de correr. A minha missão, além de completar a prova, é mandar notícias por aqui, pelo caminho. Como é uma prova de revezamento (afinal, são 600km!), a parte que me cabe deste latifúndio é de cerca de 50km no total. Achou "pouco"? Pois há duas semanas corri uma Meia Maratona (21km) e, há um mês, a Maratona de Berlim (42km) — isso fora a quilometragem percorrida nos treinos (uns 40km por semana). Nada mal para uma ex-sedentária quase convicta. 


Arquivo Pessoal
Após quatro horas de prova, Ana recebe a medalha em Berlim
A minha carreira de Papa-léguas começou há quatro anos. Antes disso, fazia jus à fama dosjornalistas: horas e mais horas na frente do computador, um bom chope com os amigos algumas vezes por semana e corrida, no máximo, atrás de algum entrevistado. Mas, como a guerra com a balança era tão antiga quanto a promessa de começar a academia na segunda-feira (e a idade foi avançando, coisa chata que acontece com todo mundo!), achei que era hora de encontrar uma atividade física que não fosse apenas uma obrigação. Minha chefe na época deu um empurrão e me transferiu para a sucursal do Rio de Janeiro da revista onde eu trabalhava. Com a Lagoa Rodrigo de Freitas literalmente aos meus pés, a escolha foi fácil: me inscrevi num grupo de corrida e me apaixonei pela coisa. Não parei mais. Naquele começo de carreira de corredora, via os amigos treinando para uma maratona e dizia "ah, esses malucos... Isso não é para mim". Mas só quem também corre sabe o quanto a endorfina é certeira: uma hora você se rende à maluquice. 
Depois que voltei para São Paulo, o vício já estava no sangue e não larguei mais os treinos. E no ano passado entrei para o time dos maratonistas. O treino para esta corrida até o Rio de Janeiro coincidiu com o da Maratona de Berlim. São cerca de quatro meses de dedicação, rodando entre 65 e 75 quilômetros numa única semana. Tem de dar adeus às baladas, às taças de vinho ou copos de cerveja e aos pratos apetitosos (e gordurosos). Para aguentar o pique, além de dormir cedo (e bem), é preciso seguir uma dieta rigorosa, malhar pelo menos duas vezes por semana (além dos cinco dias de treinos de corrida) para as pernas sobreviverem ao pique, tomar vitaminas e mais vitaminas e submeter-se a sessões de tortura num massagista (a gente ganha nós em quase todos os músculos das pernas, das costas e, se bobear, até das mãos!). 
Arquivo Pessoal
A repórter recebe a camiseta da prova Desafio dos 600k
Você deve estar se perguntando: o que essa moça tem na cabeça? A resposta não é racional, nem é fácil fazer você, leitor, entender por que a corrida é tão apaixonante (apesar da dor e de tudo isso o que você acabou de ler). Mas, garanto que, se você colocar um tênis e começar, tudo vai fazer sentido. Não há sensação melhor do que a da superação, a de provar para você mesmo que você pode, basta correr (ops) atrás. Foi exatamente este sentimento que me colocou no Desafio dos 600k. Loucura para uns, a prova é o sonho de consumo de todo apaixonado por corridas. 

É a maior corrida de revezamento já promovida nas Américas. Cerca de 240 atletas amadores divididos em 20 equipes, cada uma com 12 atletas, com o mínimo de três mulheres. A regra é clara: tem que ser amador. Profissionais ficam de fora. O revezamento terá 83 trechos -- são 192,89km no primeiro dia, com parada para dormir em São Sebastião, 221,72km no segundo, com pouso em Angra dos Reis, e 175,39km no sábado, quando chegamos à Barra da Tijuca. No domingo, apenas uma corridinha de 10 quilômetros finais. 

Dia 1 - Chuva, gás carbônico e atolamento

Arquivo Pessoal
Competidores aguardam o sinal para começar a prova
Vida de jornalista realmente não é fácil. Vida de jornalista corredora, então, é pior ainda. Ontem fui dormir à 1h da madrugada e acordei às 3h30 para estar às 5h no Ibirapuera para a largada da corrida SP-RJ - o Desafio dos 600k. São 22h e estou aqui escrevendo essas primeiras linhas de como foi o dia. Minha equipe levou 14 horas para percorrer os 193km do primeiro dia, até São Sebastião. Como previsto, a equipe dosjornalistas, da qual eu faço parte, foi a lanterninha - a gente fez bonito e correu bem, mas o resto do povo não sabe brincar e queimou o asfalto. A equipe que chegou em primeiro hoje, de Belo Horizonte, completou o percurso em uma hora e meia a menos do que a gente. Mas, acreditem, o nosso resultado foi surpreeendente, e para o bem. Logo na largada o Desafio dos 600k mostrou que não era uma prova de fogo, mas de água. Largamos debaixo de um dilúvio com direito a enxurradas pelas calçadas até a Rodovia Anchieta. Como eu fui a oitava corredora do dia a pegar o bastão (na verdade é uma pulseira que marca o revezamento) e tinha pedido para a minha mãe jogar um ovo no telhado pedindo a Santa Clara que não chovesse no meu trecho, quando botei o pé na estrada o tempo tinha melhorado. Nenhuma gota do céu, mas muito gás carbônico dos caminhões. Depois da descida da Antiga Serra do Mar, assumi o posto em Cubatão, na ligação com o Guarujá. Engoli muita fumaça e corri com uma paisagem nada inspiradora. Foram seis quilômetros assim, mas sem subidas, e aproveitei para pisar forte. 

 Divulgação
"Essa não sou eu, mas juro que corri esse trecho"
No segundo trecho a equipe foi mais legal comigo. Comecei na praia de Guaratuba, em Bertioga. Como a esta altura já éramos lanterninhas, corri com a praia deserta, só eu e o mar. Incrível. Mas logo veio um trecho de trilha, no meio do mato. A chuva forte que caíra pela manhã tinha deixado estragos. Tentei desviar das poças de lama, mas baixei a cabeça para me livrar de um galho assassino, me distraí e ploft, o tênis atolou. Desencanei e segui adiante. Aí apareceu um lago (foto). Não deu para escapar da água até o joelho. Para completar meus 6,5 quilômetros, ainda teve um pedaço de estrada e uma subidaça que encarei gritando.
Aparentemente, completar pouco mais de 12km num dia, para quem corre uma maratona, é pouco. Mas, atenção: 12,5 km depois de dormir 2 horas apenas, passando 14 horas dentro de uma van, com um monte de gente suada (rindo horrores, é verdade, porque a quantidade de bobagem e bom-humor que rola ali é incrível) e um cardápio reduzido a sanduíche de peito de peru, barrinhas de cereais e frutas... Não é mole, não!

Dia 2 - Subida sem fim e tonel de gelo

 Divulgação
Subida interminável
Segundo dia da corrida. O mais duro dos quatro dias de prova. Hoje foram 221,72km (para a minha equipe, foram na verdade 186), explico por quê mais adiante), entre São Sebastião e Angra dos Reis. Paisagens lindas, mas um percurso difícil, com subidas duras e descidas muitas vezes mais assustadoras do que as subidas. A largada foi novamente às 5h da matina, depois de apenas três horas e meia de sono. O Sol deu trégua, temperatura fresquinha, chuvas leves pelo caminho. Pela planilha da prova sabia que teria um primeiro trecho bem difícil, de seis quilômetros e meio. O problema não seria a distância, mas a altimetria - a medição de quanto há de sobes e desces no percurso. O gráfico dava um certo medo, porque havia ali um pico que parecia o do Jaraguá. Pois o medinho virou desespero quando dei de cara com a tal subida. Achei que ia precisar de uma corda para escalar. Vinha uma curva, outra curva, e a descida não chegava. O motorista da van da equipe, que tinha seguido na minha frente, depois me contou que subiu a 10km/h, porque o motor não aguentava mais do que isso. Pois é, minhas pernas também não. Sobrou fôlego, mas faltou músculo e tive de andar. Alguém da ambulância do Hospital Sírio Libanês, que acompanha o ultimo corredor da prova (a galera da imprensa fisgou de vez a lanterninha, ninguém tasca), gritou lá de trás: “você está bem?”. Diante da minha resposta afirmativa, veio a piada: “pô, o povo da equipe pelo jeito te adora, hein?”. O esforço físico é tão desesperador que vem um nó na garganta. Segurei e fui. Aí, quase chorei quando passei o bastão para o próximo corredor. Missão cumprida! E num tempo até que respeitável, num ritmo de 5 minutos e 35 segundos por quilômetro (11km/h, em alguns momentos até ultrapassaria van!). Ainda tive outro trecho, três horas mais tarde, de 8km.

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Alguém estava reclamando do calor?
Depois disso tudo, ali na estrada mesmo, passei pelo duro alongamento e pela sessão de gelo nas pernas. Afinal, amanhã são mais 175km pela frente. Nosso dia acabou mais cedo. Como somos muito mais lentos que as outras equipes, a maioria formada por amadores com tempos quase profissionais, a noite caiu e, como a estrada ficou perigosa demais para seguirmos pelo acostamento esburacado, com carros indo e vindo em alta velocidade, decidimos voltar para o hotel sem percorrer os trechos finais (pulamos 35km). Quando chegamos, fui direto para a crioterapia - mergulhei num tonel de gelo e lá fiquei por dez minutos. As pernas precisam estar inteiras para a reta final.



Dia 3 - Calor infernal e ultrapassagem histórica

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Belas paisagens compensavam o esforço
O asfalto literalmente pegou fogo hoje, terceiro dia da corrida. O Sol estava forte e a temperatura chegou a 38 graus no meio do dia. A largada foi às 4h30 da manhã, em Angra dos Reis, com destino à Barra da Tijuca. Às 8h o calor já mostrava que ia dar uma canseira extra aos corredores. A guerra pelas primeira colocações continuou lá na frente. Nós, da equipe de imprensa, mantivemos a nossa honrosa lanterninha, já que entramos nessa mais pelo desafio e para contar aos nossos leitores como foi a experiência. A nossa meta é chegar. 
Mas o bichinho da competição é feroz e deu as caras no meio do dia, quando percebemos que encostamos na equipe que estava na penúltima colocação. Quando corri meu primeiro trecho, uma serra chatinha, fiz uma curva e lá estavam elas, a apenas uns 300 metros à frente: duas corredoras da equipe Mulheres Nike (como o nome sugere, formada só por meninas). É como se tivessem me dado uma dose extra de adrenalina. Eu e meu companheiro de trecho (alguns percursos são duplos, corremos juntos) olhamos um para o outro, respiramos fundo e apertamos o passo. Não conseguimos passar as meninas, mas diminuímos a diferença. Dois trechos adiante, a corredora mais rápida da equipe da imprensa fez a ultrapassagem histórica. Durante mais ou menos três minutos ocupamos a surpreendente penúltima colocação. Foi a glória, ainda que durasse tão pouco. 
Mesmo com o calor (para se ter uma ideia, corri com um saquinho de gelo debaixo do boné, para baixar a temperatura do corpo), não entregamos os pontos. Chegamos à Barra da Tijuca depois de 14 horas e 12 minutos de corrida, acabados de cansaço mas com um largo sorriso no rosto - correr 590km em três dias não é mole, nem para os que chegam na última posição. Amanhã corremos literalmente para o abraço, nos 10km finais da prova até a Praia de Ipanema.

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Equipe Imprensa celebra o fim do desafio
Dia 4 - Lanterninha e espírito de equipe

Não podia ser diferente: completamos a Corrida SP-RJ - O Desafio dos 600k com mais um dia de sacrifício. Faltavam "apenas" dez quilômetros entre a Barra da Tijuca e Ipanema, para fecharmos os 600km de prova. Dez parecem fichinha diante de 590 já percorridos, mas esses não foram. Na largada, às 7h30 da manhã, o Sol já estava forte, com a temperatura beirando os 28 graus. Sem a pressão de perseguir alguma boa colocação, já que a equipe de imprensa assumiu orgulhosa a posição de lanterninha, a missão era correr leve, apenas cruzar bem a linha de chegada. Mas o calor apertou e, como cada perna parecia pesar meia tonelada, depois dos 40km  que eu já tinha corrido até ali, cruzar a linha já não era tarefa tão tranquila assim. O que me salvou foi o espírito de equipe. Numa prova de revezamento, a ajuda dos outros integrantes da turma é fundamental: o estímulo, o isotônico que um deles te estende, as palavras de incentivo quando você acha que não correu muito bem, o "confete" que te jogam quando você acha que arrasou, tudo conta (e muito) para encarar com garra o seu próximo trecho. A coisa não foi diferente na reta final: Fábio e Karine, dois amigos de equipe, praticamente me "rebocaram" a partir do km 4. Corremos os três juntos, eu nitidamente mais morta do que eles. A dupla até tinha pique para apertar o passo, mas se negou a me deixar para trás. "Vamos cruzar a linha juntos, força, falta pouco", eles diziam. Cruzamos a linha com a marca de 51 minutos, um ao lado do outro. Foi sem dúvida uma maneira inesquecível de terminar a prova.  

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