quarta-feira, 27 de novembro de 2013

AS AVENTURAS DE UM CORREDOR URBANO - R$ 900

Por - Fernando Dantas

Quando não tenho prova agendada, costumo fazer um treino longo durante a semana. Como moro na região do Ipiranga, desço a rua Vergueiro em direção à Via Anchieta e, de lá, dou a volta pelo Grande ABC e retorno pelo mesmo caminho, o que totaliza uns 30 km. Mas, desta vez, fiz o contrário e fui até Santo André, passei no jornal onde trabalhei tempos atrás e fiquei conversando por um bom tempo com os velhos amigos de trabalho.

Por que estou detalhando o meu caminho? Por um motivo muito simples: sempre acreditei que as coisas acontecem por algum motivo. No retorno para casa, mais precisamente em frente à UniABC (Universidade do Grande ABC), que fica na divisa de Santo André com São Caetano do Sul, parei na bifurcação por um momento para decidir se voltaria pela avenida do Estado ou pela avenida Goiás. Achei melhor a Goiás porque a avenida do Estado tem muito caminhão e a poluição ali é terrível.

Bom, voltamos à corrida. Passando pela GM, já em São Caetano do Sul, na calçada desviei de uma senhora com roupas simples que vinha na direção contrária mexendo em sua bolsa. Até aí, nenhuma novidade. Quando parei para atravessar uma das ruas, vi uma nota de R$ 100. No momento, pensei que seriam aqueles folhetos de empréstimo consignado com dinheiro estampado mas, claro, resolvi conferir e, para minha surpresa, contei R$ 900. Fiquei sem ação, não sabia o que fazer. Olhei para frente, não vi ninguém, olhei para trás e, bem lá atrás, vi a senhora que passou por mim.

Já imaginei a possibilidade de a mulher ter sacado a aposentadoria, corri para conferir e questionei se ela, por acaso, havia sacado dinheiro no banco. Talvez devesse tê-la abordado de outra maneira porque ela poderia pensar que era um assalto, mas a mulher respondeu que não. Claro que não mostrei as notas e nem comentei, logo de cara, que havia achado algo, foi quando ela começou a tremer e exclamou com uma voz trêmula: "espera, tô indo pagar uma conta" e tirou um boleto de cartão de crédito. Pediu para eu ler o que estava escrito ali, talvez não soubesse ler ou os números eram pequenos demais. Conferi e o valor da fatura era de R$ 843, ou R$ 143 o pagamento mínimo. Não tive dúvida, vi a senhora mexendo na bolsa lá atrás e vim conferir se era seu mesmo, entreguei-lhe o dinheiro. Ela abriu uma sacolinha de mercado com o RG e dobrou o boleto junto com as notas, me agradeceu muito, disse que estava indo pagar esta conta para uma pessoa.

Bom, depois pensei na possibilidade de a senhora ter me enrolado e levado a grana, mas as evidências eram muito contundentes, segui o meu caminho com o sentimento de dever cumprido e com satisfação de ter ajudado alguém. Imagina na hora em que ela fosse pegar o dinheiro e nada, complicado né? Concluindo: terminei o meu treino de 32 km cansado, claro, mas feliz.

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