domingo, 15 de dezembro de 2013

AS AVENTURAS DE UM CORREDOR URBANO - UM CORREDOR, UMA CARTINHA DE NATAL E UM VIOLINO

Há pouco tempo acompanho os posts pelo Facebook do blog Seguidores de Fidipides e pedi encarecidamente que publicasse a minha história na coluna "As aventuras de um corredor urbano", e fui prontamente atendido em compartilhar este meu momento. Bom, me chamo Ricardo Pavani, tenho 34 anos e trabalho em um escritório de contabilidade no Centro de Santo André, no ABC Paulista. Sou viciado em corrida e praticamente todos os dias calço meus tênis e dou algumas voltas no quarteirão onde moro, no Parque das Nações, também em Santo André, mas dificilmente participo de provas, prefiro só correr mesmo. Como moro distante do Centro, às vezes volto correndo para casa, principalmente no verão, e em uma desta minhas voltas, no mês de dezembro de 2012, passei em frente à agência dos Correios que fica próxima à Prefeitura de Santo André e uma faixa sobre as cartinhas para o Papai Noel me chamou a atenção. Resolvi ler algumas cartinhas que as crianças carentes escrevem para o Papai Noel na esperança de que seus desejos sejam realizados. Li de tudo, pedidos de brinquedos, gatinhos, carretel de linha para soltar pipas e tudo mais.... Mas uma, apenas uma, me chamou a atenção. Escrita em papel de caderno com uma letra arredondada e caprichosa, resumia a história da família de uma mãe que escreveu a carta sem pretensão de que fosse atendida. Nela havia três pedidos: um videogame para o filho caçula, uma bicicleta para o do meio para facilitar a ida para a escola e, para o mais velho, um pedido inusitado. Eis um trecho da carta: "o meu filho mais velho faz aulas de violino com um professor voluntário na escola municipal onde estuda mas, com as férias de fim de ano, não haverá aula e ele não conseguirá praticar, e pode acreditar, ele toca muito bem." Caros leitores, eu tinha um violino que estava encostado, o som do violino lubrifica os meus ouvidos, na minha percepção é um instrumento divino, comprei-o e entrei na escola de música de um amigo para tirar um sonzinho dele, mas foi uma catástrofe, percebi que não levo jeito. E agora, diante de mim, estava a
oportunidade de ajudar alguém. No dia seguinte, comentei com o pessoal do trabalho sobre a cartinha e a empolgação foi geral, fizemos um rateio e compramos uma bicicleta nova e o office-boy doou o videogame. Pronto, só faltava embrulhar e entregar os presentes, e lá fui eu acompanhado da minha mulher (que não é corredora, ainda), colocamos as coisas no carro e fomos procurar o endereço embaixo de chuva. A mãe e os filhos moravam no Jardim Santo André, uma região muito pobre cercada de favelas. Bom, nestes locais não é recomendado entrar logo de cara, então fui a um boteco e perguntei se alguém conhecia uma família em que um menino toca violino. Um dos frequentadores que os conhecia e sabia até o nome do garoto se prontificou a nos acompanhar até a casa, começamos a subir um morro pelas vielas com escadas feitas na terra batida que, naquele momento, escorregava muito devido à chuva que tinha dado uma trégua, até que avistamos o barraco de madeira muito pequeno com telhas de zinco coberto com plástico. Batemos na porta e atendeu o futuro músico com olhar assustado. Entramos e os três presenteáveis estavam a nossa frente calados, um ao lado do outro. Perguntamos da sua mãe e o do meio respondeu que ela estava na frente de trabalho da prefeitura. Então demos início à entrega dos presentes pedidos ao Papai Noel: a bicicleta, o videogame e o violino. A bicicleta foi a mais cobiçada pelos dois irmãos mais novos, e o mais velho pegou sem acreditar o violino e ficou sem reação, então pedimos para tocar, ele arriscou umas notas e respondeu com voz chorosa que estava desafinado. Ficamos mais alguns minutos calados observando a alegria das crianças, falamos mais algumas coisas que nem me lembro mais, e nos dirigimos para a porta para ir embora. O que mais impressionou a minha esposa que, como toda mulher, é atenda a detalhes, foi a delicadeza daquele lar, cuidadosamente decorado com toalhinhas de crochê e limpo, muito limpo, com a louça lavada no escorredor de pratos, à espera da próxima refeição. No batente, próximo à dobradiça, estava escrito com caneta "aqui mora uma família feliz".