segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Paixão

Foi na São Silvestre de 2000, logo na descida da Major Natanael, que os olhares de Roberto e Letícia se cruzaram. Por uma fração de segundo houve uma identificação profunda entre eles. Letícia até deu uma leve piscadela a Roberto, passou por ele e seguiu em frente, ainda com passos moderados. Roberto ficou louco de desejo e queria acompanhar de perto aquela que, possivelmente, seria a mulher de sua vida, a moça que agora seguia à sua frente, com calça de ginástica colada ao corpo, rabinho de cavalo e um perfume inebriante.

Ela seguia ali, a apenas 2 metros dele, ops!, a pouco mais de 4 metros, corrige, a 20 metros, 40 metros... a inalcançáveis 2 quilômetros. Mas Roberto continuava firme, esbaforido, mas firme, na esperança de que ela o esperasse na linha de chegada. Quanto mais a linda moça se distanciava, mais Roberto morria de raiva das vezes em que fora vencido pela preguiça ao longo do ano.

Apesar dessa turbulência interior, e superando seus limites, Roberto se motivava com a chance de reencontrar a tal moça assim que cruzasse a linha de chegada. Mas não foi dessa maneira que a coisa aconteceu. Próximo do fim da prova, ele ainda estufou o peito e retirou um sorriso do fundo da alma para cruzar a linha com uma aparência “tranquila”, na esperança de que a garota o observasse.

Doce ilusão. Letícia já estava longe, talvez até em casa. Recobrado o fôlego, Roberto sentou-se no meio-fio para digerir a decepção, enquanto comia uma banana e apertava firme, com raiva, a barrinha de torrone entregue no kit ao final da corrida.

O fato é que Roberto jamais se esqueceu de Letícia e, de 2000 para cá, correu todas as provas da São Silvestre na esperança, de, quem sabe, reencontrar a linda moça de rabinho de cavalo na descida da Major Natanael, só pra lhe dizer um “oi” e, quem sabe, deixá-la para trás, de uma vez por todas.

É que nessa ânsia por reencontrar o grande amor de sua vida, Roberto tornou-se um exímio corredor, a ponto de talvez flecha nenhuma atirada por Cupido afetar seu coração. Hoje, Roberto se sente muito mais fortalecido e feliz, contagiado, sobretudo, pelo apaixonante ato de amor por si próprio que é o de correr.

Antonio Rogério Cazzali, jornalista, fotógrafo, poeta e professor

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Hermano na São Silvestre

Quem pratica corrida sabe que, diferentemente do futebol, é bem difícil conseguir algum tipo de incentivo para praticá-la. Por esse motivo, a oportunidade às vezes vem na forma de um ato solidário, como é o caso  do argentino Matias Moreira, que irá correr a São Silvestre com a ajuda de várias pessoas do bairro Ipiranga em São Paulo.

clique no link e veja a história de Matias - https://www.youtube.com/watch?v=pihQnPM2cQg

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Passageiro

Correr a São Silvestre é fazer uma viagem como passageiro de si mesmo. É um momento em que o ano todo passa pela sua cabeça, ocasião em que seus sentimentos são atravessados pela paisagem da cidade e a sensação de solidão se destaca no aglomerado de pessoas, todas elas concentradas no ritmo de suas passadas. É quando, no enorme burburinho, fala mais alto o silêncio. É quando lhe chama a atenção uma pequena muda de laranjeira que brotou por entre as frestas de uma calçada, e descobre-se que um copinho de água pode ser demais para quem tem sede de correr.

É quando Elvis Presley se encontra com Ayrton Senna, e um índio só de tanga, penacho e pés no chão supera na subida um outro sujeito que se veste como garçom. Uma disputa que se passa ali bem pertinho do homem-aranha, que ensaia um tímido “olá” ao Hulk, indiferentes os dois ao sósia do goleiro do Corinthians que insiste em fazer selfie a cada 100 metros. É quando se encontra velhos amigos e se faz amizade nova a poucos minutos da largada. É quando Lampião dialoga com Gandhi, e a moça que corre de noiva joga o buquê pelo caminho, desviando com cuidado do vômito quente deixado na Alameda Olga.

Correr a São Silvestre é dizer desaforos no meio da Rio Branco, sem medo de atropelamento, e ter uma sensação de amnésia diante do Memorial. É ler antes da largada um mundo de placas com nomes de cidades, nomes esses que, no auge do seu desespero, no meio da subida da Brigadeiro, lhe voltarão à mente em forma de loucura, de câimbra mental, com perguntas do tipo: “Por que nunca fui a Cerquilho?”; “Piraçununga ou Pirassununga?”; “Onde, meu Deus, ficará essa São Gonçalo do Rio Abaixo? (pra cima do rio?)”; “Como será que o pessoal do Macapá chegou até aqui?”; ou ainda, “Se eu jogar o número de peito do sujeito ali, de Aracaju, será que ganho no bicho?”.

Durante a São Silvestre descobre-se também que isotônico engordura o chão, e que com o novo trajeto, bem no cruzamento da Ipiranga com a São João, difícil será aquele corredor que entre uma respirada e outra não pensará na “Sampa”, do Caetano, com um leve temor de que “aconteça (literalmente) algo em seu coração”.
Correr a São Silvestre é se sentir apenas mais um na enorme massa humana, apesar de cada pessoa ali ter uma história particular com a corrida, seja ela confessável ou não. É saber que lá em casa muita gente da família vai te procurar na TV em meio àquele “bolo” na largada, e quase sempre não vai te achar, embora normalmente o sujeito que eles mais verão na tela será um corredor do continente africano, com suas passadas largas e respiração controlada.

Correr a São Silvestre é verificar tardiamente que tênis novo não serve pra ser estreado na prova, e que “pipocas” e
inscritos se respeitam, pois há algo maior em disputa, que é essa paixão pela corrida. Descobre-se ainda que há aqueles corredores que esbanjam vitalidade e que tentam motivar outros já cansados, como há também aqueles que se arrependem logo no início e prometem se preparar melhor no ano seguinte. Há quem paquere, quem não dê a mínima e existem até aqueles que vão discutindo a relação da avenida Pacaembu até o viaduto do Chá.
Ah, há também aqueles amigos que filmam toda a corrida, e aqueles que timidamente erguem o braço quando passam perto das câmeras das emissoras. Há os que correm quase pelados e aqueles que carregam na cintura mil coisas que vão balançando pelo caminho. Há os corredores especiais que são um exemplo de dedicação para qualquer pessoa, e existem aqueles que assistem a prova do lado de fora, mas com o coração apertado de arrependimento de não estar naquela muvuca.

Enfim, correr a São Silvestre é descobrir que essa cidade tão agitada durante o ano parece descansar nesse dia. A impressão que se tem é de que ela se envaidece de mostrar sua essência, sua história e arquitetura ao povo que passa correndo, compenetrado. Este também é o momento em que as pessoas agradecem a acolhida que essa metrópole proporciona a todos, sejam eles paulistanos, paulistas, pessoas de outros Estados e de outros países, atletas, obesos, torcedores, sedentários, fantasiados ou não, motivados, tristes, alegres, pagadores de promessa ou simplesmente viajantes.

E quando a prova termina, a sensação é de missão cumprida, de ano concluído e ali mesmo, na avenida Paulista, brota dentro de cada corredor uma forte disposição para enfrentar um novo período que se inicia, agora, com as bênçãos renovadas de São Silvestre.

Antonio Rogério Cazzali - jornalista, poeta, fotógrafo e professor

Vamos ajudar o ultramaratonista Carlos Dias?

Seus passos são simples, faz uma fusão com a lama, vira larva, ganha equilíbrio nas geleiras, o conselho vem dos ventos, a flexibilidade das árvores, a montanha te fortalece e me protege contra a zona de conforto. Este é Carlos Dias filho da mãe Neli e do pai Joaquim pai do Vinícius, também é amigo. É feito de Iridium e o seu próximo desafio é correr 250km no Sri Lanka. Acesse o link e ajude a levar a bandeira do Brasil para o outro lado do mundo.

Para saber mais detalhes sobre esse projeto clique aqui e para participar do crowdfunding, acesse: http://www.kickante.com.br/campanhas/ultramaratona-no-sri-lanka-250km-em-7-dias

Quer saber mais sobre Carlos Dias?

Dono de um recorde brasileiro ao mapear o Brasil correndo, num percurso de 18 mil quilômetros com duração de 325 dias, o ultramaratonista Carlos Dias é tido como o Forrest Gump da vida real. O que poucos sabem é que, muito mais do que a habilidade e invejável resistência, Carlos tem em comum com o famoso personagem o fato de ter iniciado essa jornada na infância, quando percorria 15 quilômetros por dia em São Bernardo do Campo para vender doces para ajudar na renda familiar. Esse período foi essencial para que se tornasse um dos maratonistas de grande referência no Brasil.

Na adolescência, começou a trabalhar de lavador de peças em uma empresa de logística, depois como office-boy, passando para auxiliar de compras, até chegar a gerente de vendas em uma empresa de telecomunicações. Se formou em Administração de Empresas e pós-graduou-se em Psicologia Organizacional. 

Os estudos realizaram o sonho de sua mãe que criou três filhos com muita determinação, sempre passando a mensagem de "nunca fazer nada pela metade". Carlos conta que ela não sabia ler e nem escrever, era faxineira de uma empresa. Seu pai faleceu quando tinha 2 anos, e a mãe encarou a vida com um foco impressionante na busca do sonho de ver os três filhos na universidade. Uma missão que ela cumpriu "com muita luz", afirma o ultramaratonista.

Carlos Dias começou a correr exatamente no dia 1° de setembro de 1993. Vinte anos depois, a corrida faz parte de sua vida, e por causa dela, realiza palestras e organiza ultramaratonas em lugares remotos ao redor do planeta. Leia mais sobre a sua fascinante trajetória.

Carlos Dias 

quantas corridas realizadas - não tenho mais esse cálculo, mas são muitas de 5 e 10 km, maratonas e diversas ultramaratonas, desde provas de 24h a corridas que duram sete dias em lugares extremos. Além dos desafios de travessias como o que realizei ao redor do Brasil de 18.250 km em 325 dias, a travessia dos EUA de Leste a Oeste (5.130 km em 59 dias) e o desafio das capitais que acabei de concluir com êxito correndo 24h todos os finais de semana em 27 capitais do Brasil.

por que começou a correr - comecei a correr no dia 1° de setembro de 1993 em uma prova de 10 km organizada por uma escola na Vila Prudente, em São Paulo. 
Na época, tinha 20 anos de idade; passaram-se 20 anos de jornada e cheguei aos meus 40 anos de idade com muito entusiasmo. São tantos os motivos para começar a correr... Primeiro, o gosto de experimentar algo novo e sensações que o levam a sentir-se vivo de fato. Outro motivo: sempre gostei de desafio e a corrida oferece desafios para quem pratica, mesmo que você corra 1 km, terá um desafio a vencer. Um outro motivo pelo qual comecei a correr com maior profundidade foi o fato de o nosso campeão Ayrton Senna ter falecido em 1994. Ficou um vazio aos domingos, me inspirei com a maneira como ele levava a sua carreira, e aí decidi fazer a diferença no esporte, mas não sabia como. Acho que hoje tenho essa resposta, uso o esporte para agregar à vida de crianças com câncer, passar uma mensagem de persistência e fé para quem está cético na vida.

relate algo curioso - todos aqui no Brasil e nos EUA me chamam de Forrest Gump por correr longas distâncias. Sempre digo que a diferença do Forrest brasileiro para o americano (personagem do filme) é que eu corro por uma causa, e o do filme, sem um sentido.

onde costuma treinar - eu treino na clínica do CEGRAFE (Centro Grava de Fisioterapia do Esporte), faço trabalho de equilíbrio, força, alongamentos, resistência dentro da piscina, faço treinos com meu treinador Herói Fung na Serra da Cantareira e na Pedra Grande, em Atibaia, além de correr pelas ruas da cidade de São Paulo adequando a minha agenda do dia. Além disso, faço trabalho de alinhamento das vértebras com o quiropraxista Thomas Hiroiuki e massagem uma vez na semana com a equipe de massoterapeutas do SPA Bem Estar.

o dia de herói - foram tantos, mas vou relatar o dia do nascimento do meu filho Vinícius Dias, no dia 2 de janeiro de 1997. Eu ajudei a fazer o parto e fui o primeiro a pegar meu filho junto com o médico. A emoção foi tão incrível que eu olhei para o médico e disse que iria cruzar o Brasil correndo para agradecer aquele momento divino em minha vida. Depois disso, corri 9.000 km em 100 dias e hoje estou no livro dos recordes brasileiro. Outro "dia de herói" quando quando circulei o mapa brasileiro correndo, com meu filho correndo comigo os últimos metros e encontrando com as crianças do hospital GRAACC. Ao final dessa epopeia pelo país, foi realmente um dia de herói.

corrida dos sonhos - a corrida dos sonhos será correr em agosto de 2014 na ilha de Madagascar. De qualquer forma, realizei muitas corridas dos sonhos, entre as quais correr na Antártida, Saara, Mongólia, Atacama e Floresta Amazônica, além, é claro, do Nepal.

antes da largada - eu tomo meu café com frutas, pães, bolos e sucos. Procuro relaxar a mente ouvindo um samba de raiz e viajar nas letras de Chico Buarque, Noel Rosa, Cartola entre outros tantos mestres...

na chegada - extravasar, abraçar, chorar simplesmente, comemorar os passos dados, agradecer a Deus e às pessoas que me fizeram chegar ali.

pior corrida - acho que não existiu, pois em cada corrida entrei com a felicidade de estar ali fazendo parte dos atletas que iriam correr. Difícil foi superar o desafio do Nepal, quando meu corpo sucumbiu no quarto dia e corri 103 km nos 6.800 metros de altura enjoando muito na altitude, mas, mesmo assim, agradeci a Deus por chegar até ali nos 103 km naquela montanha mágica, a Anapurna, e um local de um povo impressionante e gentil.

quem admira no esporte - Ayrton Senna, pela atleta que foi, um ser humano verdadeiro que era firme em sua ideias. Amir Klink, pela visão empreendedora, um visionário que enxerga um cenário de oportunidades onde muitos não teriam coragem de trilhar. O técnico Bernardinho, por ser um líder participativo, obstinado e focado, suando junto com a equipe, ele faz o time render em momentos difíceis da partida.

correr é - a minha segunda pele, é poder abraçar a vida de forma plena, sem barreiras, sem máscaras, correr é viver de verdade é aprofundar o relacionamento intrapessoal para fortalecer o relacionamento interpessoal com o mundo ao nosso redor.

assista também - 


no canal Seguidores de Fidípides no YouTube - Carlos Dias 

Carlos Dias agradece o apoio das empresas - TEGMA E TELEX.

email - carlosdias12@hotmail.com

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Disputa Acirrada

Era uma vez um par de tênis. Mas aquele não era um par de tênis comum. O pé direito competia o tempo todo com o pé esquerdo, e vice-versa. Bastava o pé direito ir à frente que logo o pé esquerdo o ultrapassava. Mas quando o pé esquerdo estava na dianteira, em fração de segundo, o pé direito lhe tomava a frente. E nessa disputa acirrada sempre tinha um vencedor, que não era o pé direito nem o esquerdo, mas o corredor, dono desse par de tênis, que vivia vencendo as provas de rua. Era como se ele flutuasse.

Superava os adversários de uma maneira mágica, e nunca ninguém desconfiou de que a competição particular entre os pés direito e esquerdo do seu tênis é que funcionava como um “motor”, dando uma enorme vantagem a esse atleta nas corridas. Até no pódio um pé queria ficar à frente do outro, e por isso já era marca registrada desse corredor sua “sambadinha”, com a medalha no pescoço e o troféu na mão.

Contudo, os quilômetros rodados pelas mais variadas ruas desse mundo deram maturidade aos impetuosos pés de tênis. Até que um dia, perceberam que competir daquele jeito já não lhes trazia felicidade. Dessa forma, marcaram para a corrida seguinte o fim das disputas, de uma vez por todas. E assim se deu: quando o corredor liderava a prova de São Silvestre daquele ano, a pouco menos de 50 metros da linha de chegada, já na avenida Paulista, os dois pés de tênis, esquerdo e direito, decidiram deixar as diferenças de lado e selaram um acordo de paz através de um entrelaçamento afetuoso dos cadarços, que mais pareceu um abraço, momento em que eles, de repente, estancaram na avenida, juntinhos. Momento também em que o tal corredor, “não se sabe como”, caiu, com tudo, de cara no chão.

Antonio Rogério Cazzali - jornalista, professor, poeta e corredor.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Dentista, motoqueiro e corredor

É o canal Seguidores de Fidípides está crescendo, não deixe de ver o último vídeo com Eduardo Fisher; que é cirurgião dentista, motociclista e agora começou a encarar as corridas de rua. Acesse lá: http://youtu.be/NLe6urGIe6A

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Testamos pra Caramba - Salomon Speedcross 3

Nesse TESTAMOS PRA CARAMBA, o teste foi com o tênis Salomon speedcross 3 uma boa opção para quem gosta de correr na montanha. Quer saber mais, então acesse: www.youtube.com/watch?v=rkO4bkNFB8Y

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Conheça Valdir Camargo

Neste episódio de Seguidores de Fidípides, vamos contar a história de Valdir Camargo, atleta de elite e proprietário da VC assessoria esportiva que fica lá no Museu do Ipiranga. Espero que gostem, até mais!!! - acesse o link: https://www.youtube.com/watch?v=7gRiZOU_PAk

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Carlos Dias o super-humano

Carlos Dias é tido como o Forrest Gump da vida real. O que poucos sabem é que, muito mais do que a habilidade e invejável resistência, Carlos tem em comum com o famoso personagem o fato de ter iniciado essa jornada na infância. Esse período foi essencial para que se tornasse um dos ultramaratonistas de grande referência no Brasil. Assista agora:https://www.youtube.com/watch?v=2G_ZCWVgJlk

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Agora no Youtube

Está no ar o primeiro vídeo do blog Seguidores de Fidípides, Para a estreia do canal do YouTube, eu converso com o maratonista Leonardo Neto, que nos ensinou um delicioso risoto de camarão. Acesse o link:
https://www.youtube.com/watch?v=fHaUCoNHYFs

sexta-feira, 3 de julho de 2015

A siesta

Jab, jab direto, cruza e esquiva. Até pouco tempo atrás, estas eram as palavras que faziam parte do cotidiano esportivo do empresário Claudinei Cristiano Bulka, de Curitiba (PR). Aos 13 anos, após assistir a "Rocky, um lutador", o clássico filme que conta a história do boxeador Rocky Balboa, interpretado por Sylvester Stallone, decidiu seguir a carreira de boxeador. Foi longe e chegou a tentar se profissionalizar, mas sentiu que não seria fácil e desistiu do sonho.

Tempos depois, a convite de uma amiga, encarou uma corrida de 10k e já bateu na casa dos 41 minutos. Ainda em 2011, procurou uma assessoria esportiva para se aperfeiçoar nos treinamentos e, depois de algumas provas de 10k e uma maratona no mesmo ano, encarou a peso-pesado das corridas, a Comrades Marathon, que naquele ano era Up Run, ou seja, subindo. E, pasmem: para quem achou que levaria um nocaute, o gongo bateu em 6h57, sendo o brasileiro mais rápido.


Hoje as palavras que mais escuta é intervalado, tiro, longão etc, e, imaginem só, quem conhece a tradição de se tirar uma "siesta" depois do almoço, muito comum em países como Espanha, Itália e no Sul do Brasil, para Bulka é a hora de sair para cumprir a planilha de treinamento.

Nas palavras de Claudinei Cristiano Bulka, o que representa a Comrades Marathon:


Antagonismo,
Alegria e tristeza,
Céu e Inferno, 
sentimentos opostos, mas compartilhados no mesmo dia, 
Êxtase de você estar bem preparado e conseguir desenvolver e executar o que treinou,
Tristeza quando as coisas não funcionam da maneira que imaginou, 
daí vem aquele sentimento de frustração e derrota, 
mas estas emoções logo passam quando você vê e sente a energia contagiante da multidão, 
quando sente ser parte e fazer parte de uma tradição de 90 anos, 
a Comrades, eu sempre falo e comparo, é uma metáfora do nosso dia a dia, 
tentar ser cada vez melhor, tentar se superar, dia após dia
por isso ano após anos atravessamos o mar e desafiamos um percurso inóspito  que derruba você no momento que se imagina muito especial,
eu, você e ou melhores do mundo.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

O mineiro Back to Back

No ditado popular se diz que "mineiro come queto", vai de mansinho e chega lá. Com o advogado de Belo Horizonte Márcio Heleno da Silva, não é diferente. Ele já participou de duas maratonas de Berlim, na Alemanha; duas Two Oceans, prova que percorre os 56 km de costa a costa da África do Sul; e correu no deserto do Atacama, no Chile. Será que já é o bastante? Não, faltava em seu currículo a back to back da Comrades, feito que ele acabou de conquistar em maio passado.

Márcio começou sua trajetória em 2004, quando decidiu correr para eliminar o estresse que o seu trabalho de advogado proporciona. Ao perceber que este seria o melhor remédio, partiu para as ultramaratonas.  

Conheci o Márcio e tantos outros atletas Comrades-maníacos no portão de embarque em Joanesburgo, quando aguardava a conexão para Durban. E, sabendo da sua história, não poderia deixar de registrar aqui a sua visão sobre a Comrades Marathon.

por Márcio Heleno da Silva;

Dizem os africanos que a Comrades não é uma corrida; é uma montanha a ser vencida. Na verdade, ela é uma série de montanhas a serem transpostas em tempos predeterminados pela organização da prova, a saber, as chamadas "big five": Polly Shortts, Inchanga, Botha's Hill, Fields Hill e Cowies Hill. 

É preciso muito treino, muito respeito e uma boa estratégia para enfrentá-las. Se você não estiver muito bem preparado, esteja certo de que uma delas o engolirá antes do fim. 

Vencê-las por duas vezes, em 2014 e 2015, e ter conquistado a medalha "back to back", transformou-me como pessoa. Essa prova colocou-me no meu devido lugar. Tornei-me mais humilde à força. 

Em resumo, a Comrades é um dos maiores desafios humanos já propostos. É uma prova que todo o corredor deveria fazer uma vez na vida. Não creio que seja fisiologicamente saudável fazê-la. Mas vale muito a pena pelos inúmeros benefícios de ordem existencial. 


quarta-feira, 17 de junho de 2015

O Embaixador da Comrades no Brasil

Nato Amaral - de branco cruzando a linha de chegada
Vamos dar continuidade à série de posts sobre a 90ª Comrades. O paulistano Nato Amaral, 43 anos, conta o que a Comrades significa para ele.

Ante do relato, conheça a trajetória deste corredor que foi primeiro sul-americano da história a receber o Green Number (dez participações consecutivas), em 2011, das mãos de Bruce Fordyce (nove vezes campeão). Em 2015, completou a sua 13ª corrida depois de ter participado da Unogwaja, uma prova ciclística de quase 1.700 km percorridos em dez dias que sai de Cape Town e chega à Pietermaritzburg ao meio-dia de sábado e, depois de um pequeno descanso, teve de estar preparado para percorrer os quase 90 km da Comrades no domingo, às 5h30. 

Nato também é Embaixador da Comrades no Brasil e está empenhado em completar a Double Green Number, que significa 20 participações. 

por Nato Amaral

Muito mais que uma ultramaratona. Uma verdadeira paixão.

Bem além de uma prova de rua. Um evento que faz parte da história de um país.

Sua origem está na guerra. Sua mensagem principal está na paz.

Extrapola qualquer conceito de competição. Um evento da mais pura solidariedade.
Nato recebendo o Green Number de Bruce Fordyce

A Comrades, para mim, é algo que, sem nenhum egoísmo, só eu consigo entender. Pois só quem participa realmente entende. E cada um entende do seu jeito. 

E todos estão corretos, já que a Comrades mexe com o coração de quem pisa naquele solo sagrado. 

Emoção do início ao fim; ou melhor, emoção sem fim.

Na Comrades não temos adversários. Na Comrades somos todos camaradas. Literalmente Comrades.

Leia mais:


sexta-feira, 12 de junho de 2015

Comrades, o que é isso?

Caros leitores, sei que fiquei um bom tempo ausente, quase não apareci por estas bandas e não publiquei quase nada. Mas, tudo isso tem um motivo significativo, que foi a minha participação na 90ª Comrades, realizada na África do Sul, mais precisamente entre as cidades de Durban a Pietermartizburg. Ainda emocionado com as muitas lembranças desta corrida épica, vou agora dividir com vocês a minha experiência e de alguns amigos que também fizeram parte disso.

Como a Comrades é cheia de charme, desafios, emoções, dor, alegrias, e tradições, vou dividir em alguns posts para não ficar muito massante a leitura. Então, vou começar contando a história da corrida considerada a Mãezona das ultramaratonas. Vamos lá, foi dada a largada, boa leitura!

Logo após o final da Primeira Guerra Mundial, quando nos quatro anos de conflito somavam-se os quase 10 milhões de mortos, fundou-se a Liga dos Camaradas, para dar assistências aos soldados que retornaram e às famílias que perderam seus entes.
O soldado sul-africano Vic Clapham, que serviu no front da África Oriental, aproximou-se da Liga com uma ideia ousada: organizar uma corrida de Pietermarizburg, sua cidade natal, a Durban, para homenagear os companheiros que tombaram no conflito. 
Mas a Liga não se interessou pelo projeto, achando o percurso de quase 90 km muito desgastante e não traria muitos interessados, Clapham rebateu alegando que o treinamento militar e as longas marchas que fizeram nos campos de batalha ultrapassavam esta quilometragem e que agora participariam atletas treinados. Mesmo assim, sua ideia foi rechaçada. 
Vic não desistiu de sua ideia e tentou, sem sucesso, colocá-a em prática nos anos seguintes . Finalmente, em 1921, sob o olhar duvidoso da Liga dos Camaradas da Grande Guerra, fundou a Comrades Marathon. Ele publicou uma carta na imprensa local, anunciando o evento e as inscrições começaram a ser feitas em sua casa ou na de JR Walker, secretário dos Camaradas em Durban.
E, assim, foi criado um dos maiores eventos do atletismo no dia 24 de maio de 1921. Mas a corrida só se tornou oficial em 1925. Os participantes da Comrades tiveram como base as lembranças daquela terrível guerra. Muitas das tradições que existem até hoje foram estabelecidas ainda na década de 1920, como a hora de largada às 5h30 e término às 17h30.
Hoje, pouco antes da largada, toca o hino nacional da África do Sul, seguido da "Shosholoza", musica folclórica sul-africana e da música tema do filme Carruagens de Fogo. Depois de um silêncio quase absoluto, o canto do galo dá a largada para a grande corrida. O vencedor recebe um pouco antes da chegada uma carta de saudação da cidade onde a corrida começou na cidade onde a corrida termina. A carta homenageia os mensageiros que realizaram o trajeto de Durban a Pietermaritzburg em 1800.
Voltando à primeira corrida, a prova contou com 34 participantes e seu vencedor foi Bill Rowan. Até o final da década de 1960, grande parte dos corredores era formada por estudantes e somente brancos podiam participar, devido à política do Apartheid. Apenas em 1975 foi liberado para negros e o primeiro negro a vencer a prova foi o sul-africano Samuel Tshabalala.
Hoje, a Comrades Marathon passa dos 20 mil, sendo a ultramaratona com mais tradição e uma das mais difíceis em asfalto devido ao alto número de subidas durante o percurso. A cada ano o percurso é revesado, ou seja, a largada ocorre em Durban, ao nível do mar, subindo para Pietermaritzburg, totalizando 87,700 quilômetros. No ano seguinte, os atletas largam em Pietermaritzburg, a aproximadamente 800 metros ao nível do mar, e descem para Durban, um percurso com 89,700 quilômetros. 
As medalhas são divididas da seguinte forma: ouro (de verdade!) para os dez primeiros colocados, Wally Hayward do 11º corredor até 6h, prata das 6h a 7h30, Bill Rowan das 7h às 9h, bronze de 9h às 11h e a Vic Clapham de latão de 11h01 a 11h59,59. E tem mais, quem completa a subida e a descida, recebe o título Back To Back e uma medalha especial, já que os completam dez corridas consecutivas recebem o tão sonhado Green Number, ou seja, o número que na ocasião foi usado no peitoral será para sempre do corredor.
Wally Hayward - ganhou cinco vezes e completou a distância de cerca de 90 km a última vez pouco antes de seu octogésimo primeiro aniversário.
Bill Rowan - o primeiro a vencer a corrida em 1921
Vic Clapham - fundador da Comrades Marathon
Achou interessante esta história? Espere até o próximo post em que compartilharei a minha experiência na Comrades. Até mais!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Estamos na Gazeta Esportiva.

Caros leitores do blog Seguidores de Fidípides, tamém estamos no site da Gazeta Esportiva. Para acessar as mais interessantes histórias dos corredores acesse: http://www.gazetaesportiva.net/blogs/fernandodantas/, obrigado e boas corridas.