quarta-feira, 24 de junho de 2015

O mineiro Back to Back

No ditado popular se diz que "mineiro come queto", vai de mansinho e chega lá. Com o advogado de Belo Horizonte Márcio Heleno da Silva, não é diferente. Ele já participou de duas maratonas de Berlim, na Alemanha; duas Two Oceans, prova que percorre os 56 km de costa a costa da África do Sul; e correu no deserto do Atacama, no Chile. Será que já é o bastante? Não, faltava em seu currículo a back to back da Comrades, feito que ele acabou de conquistar em maio passado.

Márcio começou sua trajetória em 2004, quando decidiu correr para eliminar o estresse que o seu trabalho de advogado proporciona. Ao perceber que este seria o melhor remédio, partiu para as ultramaratonas.  

Conheci o Márcio e tantos outros atletas Comrades-maníacos no portão de embarque em Joanesburgo, quando aguardava a conexão para Durban. E, sabendo da sua história, não poderia deixar de registrar aqui a sua visão sobre a Comrades Marathon.

por Márcio Heleno da Silva;

Dizem os africanos que a Comrades não é uma corrida; é uma montanha a ser vencida. Na verdade, ela é uma série de montanhas a serem transpostas em tempos predeterminados pela organização da prova, a saber, as chamadas "big five": Polly Shortts, Inchanga, Botha's Hill, Fields Hill e Cowies Hill. 

É preciso muito treino, muito respeito e uma boa estratégia para enfrentá-las. Se você não estiver muito bem preparado, esteja certo de que uma delas o engolirá antes do fim. 

Vencê-las por duas vezes, em 2014 e 2015, e ter conquistado a medalha "back to back", transformou-me como pessoa. Essa prova colocou-me no meu devido lugar. Tornei-me mais humilde à força. 

Em resumo, a Comrades é um dos maiores desafios humanos já propostos. É uma prova que todo o corredor deveria fazer uma vez na vida. Não creio que seja fisiologicamente saudável fazê-la. Mas vale muito a pena pelos inúmeros benefícios de ordem existencial. 


quarta-feira, 17 de junho de 2015

O Embaixador da Comrades no Brasil

Nato Amaral - de branco cruzando a linha de chegada
Vamos dar continuidade à série de posts sobre a 90ª Comrades. O paulistano Nato Amaral, 43 anos, conta o que a Comrades significa para ele.

Ante do relato, conheça a trajetória deste corredor que foi primeiro sul-americano da história a receber o Green Number (dez participações consecutivas), em 2011, das mãos de Bruce Fordyce (nove vezes campeão). Em 2015, completou a sua 13ª corrida depois de ter participado da Unogwaja, uma prova ciclística de quase 1.700 km percorridos em dez dias que sai de Cape Town e chega à Pietermaritzburg ao meio-dia de sábado e, depois de um pequeno descanso, teve de estar preparado para percorrer os quase 90 km da Comrades no domingo, às 5h30. 

Nato também é Embaixador da Comrades no Brasil e está empenhado em completar a Double Green Number, que significa 20 participações. 

por Nato Amaral

Muito mais que uma ultramaratona. Uma verdadeira paixão.

Bem além de uma prova de rua. Um evento que faz parte da história de um país.

Sua origem está na guerra. Sua mensagem principal está na paz.

Extrapola qualquer conceito de competição. Um evento da mais pura solidariedade.
Nato recebendo o Green Number de Bruce Fordyce

A Comrades, para mim, é algo que, sem nenhum egoísmo, só eu consigo entender. Pois só quem participa realmente entende. E cada um entende do seu jeito. 

E todos estão corretos, já que a Comrades mexe com o coração de quem pisa naquele solo sagrado. 

Emoção do início ao fim; ou melhor, emoção sem fim.

Na Comrades não temos adversários. Na Comrades somos todos camaradas. Literalmente Comrades.

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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Comrades, o que é isso?

Caros leitores, sei que fiquei um bom tempo ausente, quase não apareci por estas bandas e não publiquei quase nada. Mas, tudo isso tem um motivo significativo, que foi a minha participação na 90ª Comrades, realizada na África do Sul, mais precisamente entre as cidades de Durban a Pietermartizburg. Ainda emocionado com as muitas lembranças desta corrida épica, vou agora dividir com vocês a minha experiência e de alguns amigos que também fizeram parte disso.

Como a Comrades é cheia de charme, desafios, emoções, dor, alegrias, e tradições, vou dividir em alguns posts para não ficar muito massante a leitura. Então, vou começar contando a história da corrida considerada a Mãezona das ultramaratonas. Vamos lá, foi dada a largada, boa leitura!

Logo após o final da Primeira Guerra Mundial, quando nos quatro anos de conflito somavam-se os quase 10 milhões de mortos, fundou-se a Liga dos Camaradas, para dar assistências aos soldados que retornaram e às famílias que perderam seus entes.
O soldado sul-africano Vic Clapham, que serviu no front da África Oriental, aproximou-se da Liga com uma ideia ousada: organizar uma corrida de Pietermarizburg, sua cidade natal, a Durban, para homenagear os companheiros que tombaram no conflito. 
Mas a Liga não se interessou pelo projeto, achando o percurso de quase 90 km muito desgastante e não traria muitos interessados, Clapham rebateu alegando que o treinamento militar e as longas marchas que fizeram nos campos de batalha ultrapassavam esta quilometragem e que agora participariam atletas treinados. Mesmo assim, sua ideia foi rechaçada. 
Vic não desistiu de sua ideia e tentou, sem sucesso, colocá-a em prática nos anos seguintes . Finalmente, em 1921, sob o olhar duvidoso da Liga dos Camaradas da Grande Guerra, fundou a Comrades Marathon. Ele publicou uma carta na imprensa local, anunciando o evento e as inscrições começaram a ser feitas em sua casa ou na de JR Walker, secretário dos Camaradas em Durban.
E, assim, foi criado um dos maiores eventos do atletismo no dia 24 de maio de 1921. Mas a corrida só se tornou oficial em 1925. Os participantes da Comrades tiveram como base as lembranças daquela terrível guerra. Muitas das tradições que existem até hoje foram estabelecidas ainda na década de 1920, como a hora de largada às 5h30 e término às 17h30.
Hoje, pouco antes da largada, toca o hino nacional da África do Sul, seguido da "Shosholoza", musica folclórica sul-africana e da música tema do filme Carruagens de Fogo. Depois de um silêncio quase absoluto, o canto do galo dá a largada para a grande corrida. O vencedor recebe um pouco antes da chegada uma carta de saudação da cidade onde a corrida começou na cidade onde a corrida termina. A carta homenageia os mensageiros que realizaram o trajeto de Durban a Pietermaritzburg em 1800.
Voltando à primeira corrida, a prova contou com 34 participantes e seu vencedor foi Bill Rowan. Até o final da década de 1960, grande parte dos corredores era formada por estudantes e somente brancos podiam participar, devido à política do Apartheid. Apenas em 1975 foi liberado para negros e o primeiro negro a vencer a prova foi o sul-africano Samuel Tshabalala.
Hoje, a Comrades Marathon passa dos 20 mil, sendo a ultramaratona com mais tradição e uma das mais difíceis em asfalto devido ao alto número de subidas durante o percurso. A cada ano o percurso é revesado, ou seja, a largada ocorre em Durban, ao nível do mar, subindo para Pietermaritzburg, totalizando 87,700 quilômetros. No ano seguinte, os atletas largam em Pietermaritzburg, a aproximadamente 800 metros ao nível do mar, e descem para Durban, um percurso com 89,700 quilômetros. 
As medalhas são divididas da seguinte forma: ouro (de verdade!) para os dez primeiros colocados, Wally Hayward do 11º corredor até 6h, prata das 6h a 7h30, Bill Rowan das 7h às 9h, bronze de 9h às 11h e a Vic Clapham de latão de 11h01 a 11h59,59. E tem mais, quem completa a subida e a descida, recebe o título Back To Back e uma medalha especial, já que os completam dez corridas consecutivas recebem o tão sonhado Green Number, ou seja, o número que na ocasião foi usado no peitoral será para sempre do corredor.
Wally Hayward - ganhou cinco vezes e completou a distância de cerca de 90 km a última vez pouco antes de seu octogésimo primeiro aniversário.
Bill Rowan - o primeiro a vencer a corrida em 1921
Vic Clapham - fundador da Comrades Marathon
Achou interessante esta história? Espere até o próximo post em que compartilharei a minha experiência na Comrades. Até mais!