segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Paixão

Foi na São Silvestre de 2000, logo na descida da Major Natanael, que os olhares de Roberto e Letícia se cruzaram. Por uma fração de segundo houve uma identificação profunda entre eles. Letícia até deu uma leve piscadela a Roberto, passou por ele e seguiu em frente, ainda com passos moderados. Roberto ficou louco de desejo e queria acompanhar de perto aquela que, possivelmente, seria a mulher de sua vida, a moça que agora seguia à sua frente, com calça de ginástica colada ao corpo, rabinho de cavalo e um perfume inebriante.

Ela seguia ali, a apenas 2 metros dele, ops!, a pouco mais de 4 metros, corrige, a 20 metros, 40 metros... a inalcançáveis 2 quilômetros. Mas Roberto continuava firme, esbaforido, mas firme, na esperança de que ela o esperasse na linha de chegada. Quanto mais a linda moça se distanciava, mais Roberto morria de raiva das vezes em que fora vencido pela preguiça ao longo do ano.

Apesar dessa turbulência interior, e superando seus limites, Roberto se motivava com a chance de reencontrar a tal moça assim que cruzasse a linha de chegada. Mas não foi dessa maneira que a coisa aconteceu. Próximo do fim da prova, ele ainda estufou o peito e retirou um sorriso do fundo da alma para cruzar a linha com uma aparência “tranquila”, na esperança de que a garota o observasse.

Doce ilusão. Letícia já estava longe, talvez até em casa. Recobrado o fôlego, Roberto sentou-se no meio-fio para digerir a decepção, enquanto comia uma banana e apertava firme, com raiva, a barrinha de torrone entregue no kit ao final da corrida.

O fato é que Roberto jamais se esqueceu de Letícia e, de 2000 para cá, correu todas as provas da São Silvestre na esperança, de, quem sabe, reencontrar a linda moça de rabinho de cavalo na descida da Major Natanael, só pra lhe dizer um “oi” e, quem sabe, deixá-la para trás, de uma vez por todas.

É que nessa ânsia por reencontrar o grande amor de sua vida, Roberto tornou-se um exímio corredor, a ponto de talvez flecha nenhuma atirada por Cupido afetar seu coração. Hoje, Roberto se sente muito mais fortalecido e feliz, contagiado, sobretudo, pelo apaixonante ato de amor por si próprio que é o de correr.

Antonio Rogério Cazzali, jornalista, fotógrafo, poeta e professor

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Hermano na São Silvestre

Quem pratica corrida sabe que, diferentemente do futebol, é bem difícil conseguir algum tipo de incentivo para praticá-la. Por esse motivo, a oportunidade às vezes vem na forma de um ato solidário, como é o caso  do argentino Matias Moreira, que irá correr a São Silvestre com a ajuda de várias pessoas do bairro Ipiranga em São Paulo.

clique no link e veja a história de Matias - https://www.youtube.com/watch?v=pihQnPM2cQg

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Passageiro

Correr a São Silvestre é fazer uma viagem como passageiro de si mesmo. É um momento em que o ano todo passa pela sua cabeça, ocasião em que seus sentimentos são atravessados pela paisagem da cidade e a sensação de solidão se destaca no aglomerado de pessoas, todas elas concentradas no ritmo de suas passadas. É quando, no enorme burburinho, fala mais alto o silêncio. É quando lhe chama a atenção uma pequena muda de laranjeira que brotou por entre as frestas de uma calçada, e descobre-se que um copinho de água pode ser demais para quem tem sede de correr.

É quando Elvis Presley se encontra com Ayrton Senna, e um índio só de tanga, penacho e pés no chão supera na subida um outro sujeito que se veste como garçom. Uma disputa que se passa ali bem pertinho do homem-aranha, que ensaia um tímido “olá” ao Hulk, indiferentes os dois ao sósia do goleiro do Corinthians que insiste em fazer selfie a cada 100 metros. É quando se encontra velhos amigos e se faz amizade nova a poucos minutos da largada. É quando Lampião dialoga com Gandhi, e a moça que corre de noiva joga o buquê pelo caminho, desviando com cuidado do vômito quente deixado na Alameda Olga.

Correr a São Silvestre é dizer desaforos no meio da Rio Branco, sem medo de atropelamento, e ter uma sensação de amnésia diante do Memorial. É ler antes da largada um mundo de placas com nomes de cidades, nomes esses que, no auge do seu desespero, no meio da subida da Brigadeiro, lhe voltarão à mente em forma de loucura, de câimbra mental, com perguntas do tipo: “Por que nunca fui a Cerquilho?”; “Piraçununga ou Pirassununga?”; “Onde, meu Deus, ficará essa São Gonçalo do Rio Abaixo? (pra cima do rio?)”; “Como será que o pessoal do Macapá chegou até aqui?”; ou ainda, “Se eu jogar o número de peito do sujeito ali, de Aracaju, será que ganho no bicho?”.

Durante a São Silvestre descobre-se também que isotônico engordura o chão, e que com o novo trajeto, bem no cruzamento da Ipiranga com a São João, difícil será aquele corredor que entre uma respirada e outra não pensará na “Sampa”, do Caetano, com um leve temor de que “aconteça (literalmente) algo em seu coração”.
Correr a São Silvestre é se sentir apenas mais um na enorme massa humana, apesar de cada pessoa ali ter uma história particular com a corrida, seja ela confessável ou não. É saber que lá em casa muita gente da família vai te procurar na TV em meio àquele “bolo” na largada, e quase sempre não vai te achar, embora normalmente o sujeito que eles mais verão na tela será um corredor do continente africano, com suas passadas largas e respiração controlada.

Correr a São Silvestre é verificar tardiamente que tênis novo não serve pra ser estreado na prova, e que “pipocas” e
inscritos se respeitam, pois há algo maior em disputa, que é essa paixão pela corrida. Descobre-se ainda que há aqueles corredores que esbanjam vitalidade e que tentam motivar outros já cansados, como há também aqueles que se arrependem logo no início e prometem se preparar melhor no ano seguinte. Há quem paquere, quem não dê a mínima e existem até aqueles que vão discutindo a relação da avenida Pacaembu até o viaduto do Chá.
Ah, há também aqueles amigos que filmam toda a corrida, e aqueles que timidamente erguem o braço quando passam perto das câmeras das emissoras. Há os que correm quase pelados e aqueles que carregam na cintura mil coisas que vão balançando pelo caminho. Há os corredores especiais que são um exemplo de dedicação para qualquer pessoa, e existem aqueles que assistem a prova do lado de fora, mas com o coração apertado de arrependimento de não estar naquela muvuca.

Enfim, correr a São Silvestre é descobrir que essa cidade tão agitada durante o ano parece descansar nesse dia. A impressão que se tem é de que ela se envaidece de mostrar sua essência, sua história e arquitetura ao povo que passa correndo, compenetrado. Este também é o momento em que as pessoas agradecem a acolhida que essa metrópole proporciona a todos, sejam eles paulistanos, paulistas, pessoas de outros Estados e de outros países, atletas, obesos, torcedores, sedentários, fantasiados ou não, motivados, tristes, alegres, pagadores de promessa ou simplesmente viajantes.

E quando a prova termina, a sensação é de missão cumprida, de ano concluído e ali mesmo, na avenida Paulista, brota dentro de cada corredor uma forte disposição para enfrentar um novo período que se inicia, agora, com as bênçãos renovadas de São Silvestre.

Antonio Rogério Cazzali - jornalista, poeta, fotógrafo e professor

Vamos ajudar o ultramaratonista Carlos Dias?

Seus passos são simples, faz uma fusão com a lama, vira larva, ganha equilíbrio nas geleiras, o conselho vem dos ventos, a flexibilidade das árvores, a montanha te fortalece e me protege contra a zona de conforto. Este é Carlos Dias filho da mãe Neli e do pai Joaquim pai do Vinícius, também é amigo. É feito de Iridium e o seu próximo desafio é correr 250km no Sri Lanka. Acesse o link e ajude a levar a bandeira do Brasil para o outro lado do mundo.

Para saber mais detalhes sobre esse projeto clique aqui e para participar do crowdfunding, acesse: http://www.kickante.com.br/campanhas/ultramaratona-no-sri-lanka-250km-em-7-dias

Quer saber mais sobre Carlos Dias?

Dono de um recorde brasileiro ao mapear o Brasil correndo, num percurso de 18 mil quilômetros com duração de 325 dias, o ultramaratonista Carlos Dias é tido como o Forrest Gump da vida real. O que poucos sabem é que, muito mais do que a habilidade e invejável resistência, Carlos tem em comum com o famoso personagem o fato de ter iniciado essa jornada na infância, quando percorria 15 quilômetros por dia em São Bernardo do Campo para vender doces para ajudar na renda familiar. Esse período foi essencial para que se tornasse um dos maratonistas de grande referência no Brasil.

Na adolescência, começou a trabalhar de lavador de peças em uma empresa de logística, depois como office-boy, passando para auxiliar de compras, até chegar a gerente de vendas em uma empresa de telecomunicações. Se formou em Administração de Empresas e pós-graduou-se em Psicologia Organizacional. 

Os estudos realizaram o sonho de sua mãe que criou três filhos com muita determinação, sempre passando a mensagem de "nunca fazer nada pela metade". Carlos conta que ela não sabia ler e nem escrever, era faxineira de uma empresa. Seu pai faleceu quando tinha 2 anos, e a mãe encarou a vida com um foco impressionante na busca do sonho de ver os três filhos na universidade. Uma missão que ela cumpriu "com muita luz", afirma o ultramaratonista.

Carlos Dias começou a correr exatamente no dia 1° de setembro de 1993. Vinte anos depois, a corrida faz parte de sua vida, e por causa dela, realiza palestras e organiza ultramaratonas em lugares remotos ao redor do planeta. Leia mais sobre a sua fascinante trajetória.

Carlos Dias 

quantas corridas realizadas - não tenho mais esse cálculo, mas são muitas de 5 e 10 km, maratonas e diversas ultramaratonas, desde provas de 24h a corridas que duram sete dias em lugares extremos. Além dos desafios de travessias como o que realizei ao redor do Brasil de 18.250 km em 325 dias, a travessia dos EUA de Leste a Oeste (5.130 km em 59 dias) e o desafio das capitais que acabei de concluir com êxito correndo 24h todos os finais de semana em 27 capitais do Brasil.

por que começou a correr - comecei a correr no dia 1° de setembro de 1993 em uma prova de 10 km organizada por uma escola na Vila Prudente, em São Paulo. 
Na época, tinha 20 anos de idade; passaram-se 20 anos de jornada e cheguei aos meus 40 anos de idade com muito entusiasmo. São tantos os motivos para começar a correr... Primeiro, o gosto de experimentar algo novo e sensações que o levam a sentir-se vivo de fato. Outro motivo: sempre gostei de desafio e a corrida oferece desafios para quem pratica, mesmo que você corra 1 km, terá um desafio a vencer. Um outro motivo pelo qual comecei a correr com maior profundidade foi o fato de o nosso campeão Ayrton Senna ter falecido em 1994. Ficou um vazio aos domingos, me inspirei com a maneira como ele levava a sua carreira, e aí decidi fazer a diferença no esporte, mas não sabia como. Acho que hoje tenho essa resposta, uso o esporte para agregar à vida de crianças com câncer, passar uma mensagem de persistência e fé para quem está cético na vida.

relate algo curioso - todos aqui no Brasil e nos EUA me chamam de Forrest Gump por correr longas distâncias. Sempre digo que a diferença do Forrest brasileiro para o americano (personagem do filme) é que eu corro por uma causa, e o do filme, sem um sentido.

onde costuma treinar - eu treino na clínica do CEGRAFE (Centro Grava de Fisioterapia do Esporte), faço trabalho de equilíbrio, força, alongamentos, resistência dentro da piscina, faço treinos com meu treinador Herói Fung na Serra da Cantareira e na Pedra Grande, em Atibaia, além de correr pelas ruas da cidade de São Paulo adequando a minha agenda do dia. Além disso, faço trabalho de alinhamento das vértebras com o quiropraxista Thomas Hiroiuki e massagem uma vez na semana com a equipe de massoterapeutas do SPA Bem Estar.

o dia de herói - foram tantos, mas vou relatar o dia do nascimento do meu filho Vinícius Dias, no dia 2 de janeiro de 1997. Eu ajudei a fazer o parto e fui o primeiro a pegar meu filho junto com o médico. A emoção foi tão incrível que eu olhei para o médico e disse que iria cruzar o Brasil correndo para agradecer aquele momento divino em minha vida. Depois disso, corri 9.000 km em 100 dias e hoje estou no livro dos recordes brasileiro. Outro "dia de herói" quando quando circulei o mapa brasileiro correndo, com meu filho correndo comigo os últimos metros e encontrando com as crianças do hospital GRAACC. Ao final dessa epopeia pelo país, foi realmente um dia de herói.

corrida dos sonhos - a corrida dos sonhos será correr em agosto de 2014 na ilha de Madagascar. De qualquer forma, realizei muitas corridas dos sonhos, entre as quais correr na Antártida, Saara, Mongólia, Atacama e Floresta Amazônica, além, é claro, do Nepal.

antes da largada - eu tomo meu café com frutas, pães, bolos e sucos. Procuro relaxar a mente ouvindo um samba de raiz e viajar nas letras de Chico Buarque, Noel Rosa, Cartola entre outros tantos mestres...

na chegada - extravasar, abraçar, chorar simplesmente, comemorar os passos dados, agradecer a Deus e às pessoas que me fizeram chegar ali.

pior corrida - acho que não existiu, pois em cada corrida entrei com a felicidade de estar ali fazendo parte dos atletas que iriam correr. Difícil foi superar o desafio do Nepal, quando meu corpo sucumbiu no quarto dia e corri 103 km nos 6.800 metros de altura enjoando muito na altitude, mas, mesmo assim, agradeci a Deus por chegar até ali nos 103 km naquela montanha mágica, a Anapurna, e um local de um povo impressionante e gentil.

quem admira no esporte - Ayrton Senna, pela atleta que foi, um ser humano verdadeiro que era firme em sua ideias. Amir Klink, pela visão empreendedora, um visionário que enxerga um cenário de oportunidades onde muitos não teriam coragem de trilhar. O técnico Bernardinho, por ser um líder participativo, obstinado e focado, suando junto com a equipe, ele faz o time render em momentos difíceis da partida.

correr é - a minha segunda pele, é poder abraçar a vida de forma plena, sem barreiras, sem máscaras, correr é viver de verdade é aprofundar o relacionamento intrapessoal para fortalecer o relacionamento interpessoal com o mundo ao nosso redor.

assista também - 


no canal Seguidores de Fidípides no YouTube - Carlos Dias 

Carlos Dias agradece o apoio das empresas - TEGMA E TELEX.

email - carlosdias12@hotmail.com

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Disputa Acirrada

Era uma vez um par de tênis. Mas aquele não era um par de tênis comum. O pé direito competia o tempo todo com o pé esquerdo, e vice-versa. Bastava o pé direito ir à frente que logo o pé esquerdo o ultrapassava. Mas quando o pé esquerdo estava na dianteira, em fração de segundo, o pé direito lhe tomava a frente. E nessa disputa acirrada sempre tinha um vencedor, que não era o pé direito nem o esquerdo, mas o corredor, dono desse par de tênis, que vivia vencendo as provas de rua. Era como se ele flutuasse.

Superava os adversários de uma maneira mágica, e nunca ninguém desconfiou de que a competição particular entre os pés direito e esquerdo do seu tênis é que funcionava como um “motor”, dando uma enorme vantagem a esse atleta nas corridas. Até no pódio um pé queria ficar à frente do outro, e por isso já era marca registrada desse corredor sua “sambadinha”, com a medalha no pescoço e o troféu na mão.

Contudo, os quilômetros rodados pelas mais variadas ruas desse mundo deram maturidade aos impetuosos pés de tênis. Até que um dia, perceberam que competir daquele jeito já não lhes trazia felicidade. Dessa forma, marcaram para a corrida seguinte o fim das disputas, de uma vez por todas. E assim se deu: quando o corredor liderava a prova de São Silvestre daquele ano, a pouco menos de 50 metros da linha de chegada, já na avenida Paulista, os dois pés de tênis, esquerdo e direito, decidiram deixar as diferenças de lado e selaram um acordo de paz através de um entrelaçamento afetuoso dos cadarços, que mais pareceu um abraço, momento em que eles, de repente, estancaram na avenida, juntinhos. Momento também em que o tal corredor, “não se sabe como”, caiu, com tudo, de cara no chão.

Antonio Rogério Cazzali - jornalista, professor, poeta e corredor.