sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Disputa Acirrada

Era uma vez um par de tênis. Mas aquele não era um par de tênis comum. O pé direito competia o tempo todo com o pé esquerdo, e vice-versa. Bastava o pé direito ir à frente que logo o pé esquerdo o ultrapassava. Mas quando o pé esquerdo estava na dianteira, em fração de segundo, o pé direito lhe tomava a frente. E nessa disputa acirrada sempre tinha um vencedor, que não era o pé direito nem o esquerdo, mas o corredor, dono desse par de tênis, que vivia vencendo as provas de rua. Era como se ele flutuasse.

Superava os adversários de uma maneira mágica, e nunca ninguém desconfiou de que a competição particular entre os pés direito e esquerdo do seu tênis é que funcionava como um “motor”, dando uma enorme vantagem a esse atleta nas corridas. Até no pódio um pé queria ficar à frente do outro, e por isso já era marca registrada desse corredor sua “sambadinha”, com a medalha no pescoço e o troféu na mão.

Contudo, os quilômetros rodados pelas mais variadas ruas desse mundo deram maturidade aos impetuosos pés de tênis. Até que um dia, perceberam que competir daquele jeito já não lhes trazia felicidade. Dessa forma, marcaram para a corrida seguinte o fim das disputas, de uma vez por todas. E assim se deu: quando o corredor liderava a prova de São Silvestre daquele ano, a pouco menos de 50 metros da linha de chegada, já na avenida Paulista, os dois pés de tênis, esquerdo e direito, decidiram deixar as diferenças de lado e selaram um acordo de paz através de um entrelaçamento afetuoso dos cadarços, que mais pareceu um abraço, momento em que eles, de repente, estancaram na avenida, juntinhos. Momento também em que o tal corredor, “não se sabe como”, caiu, com tudo, de cara no chão.

Antonio Rogério Cazzali - jornalista, professor, poeta e corredor.