quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Passageiro

Correr a São Silvestre é fazer uma viagem como passageiro de si mesmo. É um momento em que o ano todo passa pela sua cabeça, ocasião em que seus sentimentos são atravessados pela paisagem da cidade e a sensação de solidão se destaca no aglomerado de pessoas, todas elas concentradas no ritmo de suas passadas. É quando, no enorme burburinho, fala mais alto o silêncio. É quando lhe chama a atenção uma pequena muda de laranjeira que brotou por entre as frestas de uma calçada, e descobre-se que um copinho de água pode ser demais para quem tem sede de correr.

É quando Elvis Presley se encontra com Ayrton Senna, e um índio só de tanga, penacho e pés no chão supera na subida um outro sujeito que se veste como garçom. Uma disputa que se passa ali bem pertinho do homem-aranha, que ensaia um tímido “olá” ao Hulk, indiferentes os dois ao sósia do goleiro do Corinthians que insiste em fazer selfie a cada 100 metros. É quando se encontra velhos amigos e se faz amizade nova a poucos minutos da largada. É quando Lampião dialoga com Gandhi, e a moça que corre de noiva joga o buquê pelo caminho, desviando com cuidado do vômito quente deixado na Alameda Olga.

Correr a São Silvestre é dizer desaforos no meio da Rio Branco, sem medo de atropelamento, e ter uma sensação de amnésia diante do Memorial. É ler antes da largada um mundo de placas com nomes de cidades, nomes esses que, no auge do seu desespero, no meio da subida da Brigadeiro, lhe voltarão à mente em forma de loucura, de câimbra mental, com perguntas do tipo: “Por que nunca fui a Cerquilho?”; “Piraçununga ou Pirassununga?”; “Onde, meu Deus, ficará essa São Gonçalo do Rio Abaixo? (pra cima do rio?)”; “Como será que o pessoal do Macapá chegou até aqui?”; ou ainda, “Se eu jogar o número de peito do sujeito ali, de Aracaju, será que ganho no bicho?”.

Durante a São Silvestre descobre-se também que isotônico engordura o chão, e que com o novo trajeto, bem no cruzamento da Ipiranga com a São João, difícil será aquele corredor que entre uma respirada e outra não pensará na “Sampa”, do Caetano, com um leve temor de que “aconteça (literalmente) algo em seu coração”.
Correr a São Silvestre é se sentir apenas mais um na enorme massa humana, apesar de cada pessoa ali ter uma história particular com a corrida, seja ela confessável ou não. É saber que lá em casa muita gente da família vai te procurar na TV em meio àquele “bolo” na largada, e quase sempre não vai te achar, embora normalmente o sujeito que eles mais verão na tela será um corredor do continente africano, com suas passadas largas e respiração controlada.

Correr a São Silvestre é verificar tardiamente que tênis novo não serve pra ser estreado na prova, e que “pipocas” e
inscritos se respeitam, pois há algo maior em disputa, que é essa paixão pela corrida. Descobre-se ainda que há aqueles corredores que esbanjam vitalidade e que tentam motivar outros já cansados, como há também aqueles que se arrependem logo no início e prometem se preparar melhor no ano seguinte. Há quem paquere, quem não dê a mínima e existem até aqueles que vão discutindo a relação da avenida Pacaembu até o viaduto do Chá.
Ah, há também aqueles amigos que filmam toda a corrida, e aqueles que timidamente erguem o braço quando passam perto das câmeras das emissoras. Há os que correm quase pelados e aqueles que carregam na cintura mil coisas que vão balançando pelo caminho. Há os corredores especiais que são um exemplo de dedicação para qualquer pessoa, e existem aqueles que assistem a prova do lado de fora, mas com o coração apertado de arrependimento de não estar naquela muvuca.

Enfim, correr a São Silvestre é descobrir que essa cidade tão agitada durante o ano parece descansar nesse dia. A impressão que se tem é de que ela se envaidece de mostrar sua essência, sua história e arquitetura ao povo que passa correndo, compenetrado. Este também é o momento em que as pessoas agradecem a acolhida que essa metrópole proporciona a todos, sejam eles paulistanos, paulistas, pessoas de outros Estados e de outros países, atletas, obesos, torcedores, sedentários, fantasiados ou não, motivados, tristes, alegres, pagadores de promessa ou simplesmente viajantes.

E quando a prova termina, a sensação é de missão cumprida, de ano concluído e ali mesmo, na avenida Paulista, brota dentro de cada corredor uma forte disposição para enfrentar um novo período que se inicia, agora, com as bênçãos renovadas de São Silvestre.

Antonio Rogério Cazzali - jornalista, poeta, fotógrafo e professor