sábado, 25 de junho de 2016

Promessa

Foi durante o almoço de Ano Novo que Denis Nacimento, bastante acima do peso, prometeu aos familiares que correria a São Silvestre quando chegasse 31 de dezembro. Todos riram de sua promessa e não o levaram a sério. Ele teria de perder uns 30, 40 quilos, e como o pessoal já o conhecia, determinação nunca tinha sido o seu forte. Ficou magoado com a turma de casa e com alguns amigos, mas sobretudo com um cunhado inconveniente, que só aparecia nas festas de fim de ano para chateá-lo.

Como muita gente por aí, Denis não conseguiu fechar a boca, pouco se mexeu, e quando chegou outubro deu início aos treinamentos, por obrigação, mesmo. Eram pequenos trotes no parque perto de sua casa: corria, andava; andava, corria; andava, andava e praguejava porque estava acima do peso. Não tinha a mínima motivação, a não ser a de esfregar a medalha na cara dos familiares no próximo almoço de Ano Novo e, sobretudo, na fuça do cunhado chato.

Mas Denis se inquietava: será que conseguiria completar a prova? Será que venceria a subida da Brigadeiro? Será que sofreria um enfarto bem em frente ao Teatro Muncipal? O dia da corrida estava se aproximando, treinava desanimado e nem as luzes de Natal espalhadas pela cidade o estimulavam, uma vez que havia desembestado a comer panetones e bombons, e tinha ganho até alguns quilinhos por conta das festas de confraternização da firma onde trabalha na área de TI (tecnologia da informação).



Enfim, chegou o grande dia. Os familiares, em comitiva, foram assistir à prova na avenida Paulista. Diziam que tinham vindo dar uma força ao Denis, mas ele sabia em seu íntimo que seus familiares queriam mesmo era ver o seu fracasso. Cá entre nós, a família não gostava muito dele.

Largou no meio da multidão e seu coração estava agitado. Gastou parte da energia correndo bem devagar, mas correndo, logo após a largada, na avenida Paulista. Os familiares o aplaudiram enquanto ele passava, mas ele sabia que era por puro despeito. Já no final da Dr. Arnaldo estava ofegante. Tudo doía. O ar às vezes teimava em não vir. E com a alma em frangalhos começou a andar. Caminhava e chorava, de raiva, de decepção, e até de medo de enfrentar a chacota dos familiares no almoço de Ano Novo. Certamente iriam rir da sua cara, mais uma vez.
Porém, a cada lágrima Denis percebia sua alma mais leve. Sempre caminhando, ele começou a prestar atenção à sua volta. Afinal, não era só ele que caminhava. Havia outros, nas mesmas condições, até mais pesados e ofegantes do que ele. 

Assim, aos poucos, Denis se conscientizou de que estava feliz em participar da prova, mesmo se deslocando com dificuldade, mesmo com todas as suas falhas e vícios. Ele era, sim, corajoso, porque correr a São Silvestre é um feito digno de mérito, e arrastar, com esforço, um corpo pesado ao longo de 15 quilômetros, tendo a plateia por testemunha, é uma atitude que também merece respeito.

Denis subiu a Brigadeiro bem devagar. Havia feito até alguns amigos ao longo do trajeto, amigos que como ele tinham tido a coragem de enfrentar a prova, mesmo acima do peso e com pouco preparo. Um dava força ao outro, e quando Denis entrou na avenida Paulista, já no final do trajeto, seus familiares torceram o nariz e lhe lançaram olhares de reprovação pela demora. Mas, curiosamente, naquele instante, ele nem se importou com as críticas. Havia começado a prova de um jeito, mas agora já era um outro homem. Mais confiante, ciente de suas limitações, mas com vontade de ir mais longe.

Denis cruzou a linha de chegada dentre os últimos e, vejam só: não participou do almoço de Ano Novo com seus familiares, nem teve de encarar as chacotas do cunhado inconveniente. E não foi por medo. É que os amigos que ele fez na São Silvestre o convidaram para um churrasco, em que comemorariam o feito de terem completado uma das provas mais tradicionais do calendário brasileiro, e talvez mundial, quanto então aproveitariam a ocasião para criar uma equipe de corrida, já pensando num melhor desempenho na edição seguinte da prova.