quarta-feira, 11 de abril de 2018

De volta à África do Sul

De volta à África do Sul.

Quando retornei ao Brasil, já fui planejando o retorno para disputar o Back-to-Back e, como fiquei muito entusiasmado com o país, convidei a minha mulher, Renata, para aproveitar as férias e conhecer outras cidades como Durban, Cidade do Cabo e Johanesburgo. Desta vez o percurso seria ao contrário, ou seja, descendo de Pietermaritzburg a Durban, não é bem só descida, tem subida também. 


Para se ter uma idéia, quem mora em São Paulo vai entender, seria a mesma coisa que sair de Campos do Jordão (Pietermaritzburg), que é uma região montanhosa, a Santos, no litoral (Durban). Nesta fase treinava muita descida, fiz fortalecimento muscular e continuei nas maratonas e ultras para ir ganhando ritmo e resistência.

Em setembro de 2015, fiz o procedimento de inscrição e duas reservas para o passeio que havia comentado no texto anterior, desta vez acompanhado da minha mulher, que ficou maravilhada e assustada com a dificuldade do percurso. Este passeio é obrigatório fazer.

Com a experiência do ano anterior, tudo correu como planejado, não perdi a conexão no aeroporto de Joanesburgo, porém. Ao lado do Durban Exhibition Centre saem os ônibus para levar para a largada a partir das 2h da manhã e o último, se não me engano, às 4h30, estes correm o risco de chegar muito em cima da largada. 

O procedimento das zonas de largada segue o mesmo critério de qualificação, os festejos e as músicas, o galo e o disparo são perfeitamente idênticos todos os anos.
Quando larga em Durban, costuma ser um pouco mais quente, em torno de uns 20 graus, um clima confortável para largar de regata e shorts. Mas, nesta largada, por ser em uma região montanhosa, é muito mais frio e fui com a mesma roupa do ano anterior, uma mísera regata verde e amarelo, passei um frio de lascar, as pontas dos dedos ficaram roxas, aí entendi porque a maioria usa luvas, só fui melhorar quando saiu sol lá pelo km 30.

O sofrimento da corrida é o mesmo nesta fase de descida e passamos exatamente nos mesmos lugares com as pessoas incentivando, além das

crianças da  Ethembeni School, as tribos e os staffs. 
Eu sentia tanta dor no quadríceps devido ao maior impacto, que por este motivo prefiro até hoje provas com mais subidas, dói menos. 

Desta vez, os oito quilômetros finais ficam na última subida já na cidade de Durban que dá para ver o mar e o Estádio Moses Mabhida construído para a Copa do Mundo de 2010.

Um detalhe importante as medalhas são divididas da seguinte forma: ouro para os dez primeiros colocados, Wally Hayward do 11º até às 6h, prata das 6h01 a 7h30, Bill Rowan 07h31 às 9h, bronze 9h01 às 11h e a Vic Clapham da 11h01 às 11:59:59. 

Nos meus cálculos conseguiria a medalha de bronze porque chegaria antes das 11h de corrida, e consegui em 10h55, mas, para estes tempos conta o momento da largada na cronometragem do tempo bruto e não líquido aferido pelo chip, por ter perdido quase dez minutos para passar no tapete e ativar o meu relógio eu fui me baseando nele, e voltei a ganhar a Vic Clapham, a mesma da minha primeira participação, mas não me importei quando vi a medalha de Back-to-Back.
Fiquei extasiado por ter conseguido atingir a minha meta e com um profundo sentimento de inveja por não termos uma corrida tão marcante quanto essa.

Shosholoza a todos.




A minha experiência na Comrades



Comrades a Rainha das Ultramaratonas

Para resumir a minha carreira de atleta amador (ultramaratonista), após participar de algumas maratonas, achei que estava na hora de dar um passo mais longo na corrida, modalidade que adotei em 12 de fevereiro de 2012, quando a balança chegou nos três dígitos. Comecei a treinar e participar corridas de 5k, 10k e fui condicionando e perdendo peso rapidamente.
Com seis meses já estreava nos 21k e, em abril de 2013, estava eu na largada da Maratona de Paris.
Lendo uma reportagem em uma revista sobre a história da Comrades, despertou o meu interesse sobre esta prova lendária, e por que não tentar esta façanha para chancelar a minha carreira de ultramaratonista? 
Nesta época já treinava longas distâncias para me dar melhor nas maratonas e  terminava em boas condições físicas, e como sempre faço, escolho uma prova-alvo e agendo as minhas férias para o país anfitrião da corrida. Aproveito para turistar, claro! Em 2015, lá estava eu embarcando para a África do Sul a caminho da Comrades.

Timidamente, no dia 27 de maio de 2015, uma quarta-feira, lá estava eu para o embarque no Terminal 3 de Cumbica com saída às 16h rumo a Durban, nos meus pensamentos e com frio na barriga, imaginei eu sozinho embarcando e chegando com poucos corredores. Ledo engano, acho que o avião foi reservado para nós, atletas, me senti aliviado e já fui puxando assunto com varias corredores para tirar as minhas diversas dúvidas sobre tudo. Fui muito bem atendido pelo pessoal que foi me tranquilizando, acredito que havia corredores de toda a América Latina, até uns norte-americanos e brasileiros de diversas partes.

Cheguei em Joanesburgo na quinta-feira,  por volta das 7h, e perdi a conexão para Durban às 9h devido à demora na imigração. Nosso voo sairia somente às 14h, nessa longa espera escutei uma frase que marcou, "se quebrar tenta se encaixar nos ônibus" (ônibus é o apelido dos pacers contratados pela organização com uma vasta variação de horas para a chegada, são atletas experientes que ditam o ritmo e chegam exatamente no tempo estipulado nas bandeirinhas que carregam durante o percurso, se seguir os caras do começo ao fim, você chega de qualquer jeito). 

Chegando ao hotel, deixei as minhas bagagens e corri para a Expo para retirar o meu kit no Durban Exhibition Centre. Lá encontrei os brasileiros do mesmo voo, tiramos fotos e entrei na fila para estrangeiros, a retirada é muito bem organizada, além de te darem uma sacola cheia de brindes, você escolhe as pulseiras para o acesso na chegada para a área de alimentação e onde ficam os acompanhantes e os atletas que vão terminando. Lá tem almoço, lanches e bebidas à vontade, como fui sozinho nesta edição, nem peguei essa pulseirinha.

Na feira tem uma variedade de produtos, dá para matar muitas horas lá, eu confesso que fui os três dias neste

Ethembeni School

lugar. 
Na sexta, dia 29/05, fui para o hotel Hilton para o encontro do pessoal da Complete Marathons para o passeio (esta excursão é obrigatória). O Bruce Fordyce nove vezes campeão, nos recebeu muito bem, ele é uma figura ímpar. Ao longo dos quase 90km de trajeto, ele dá dicas diversas e indica onde ficam os pontos de hidratação e as câmeras posicionadas da TV estatal SABC que transmite ao vivo mais de 16 horas o evento. 
Chegamos ao colégio Ethembeni School parada essencial, lá são abrigadas crianças abandonadas pelas famílias por serem albinas ou deficientes e a Comrades destina parte da renda a essas crianças. Em gratidão, eles fazem apresentações da cultura local e nos recepcionam com as bandeiras dos países participantes, confesso que a emoção é forte.
 
Após as apresentações, saímos  emocionados com as boas vibrações que nos deixam mais confiantes para o grande dia.Devido a um atraso no passeio não foi possível passar no museu da Comrades. No sábado descansei pra caramba, já sabendo que não conseguiria dormir direito pela ansiedade do grande dia.

Ethembeni School
Não costumo chegar muito cedo para largada. Lá pelas 4h50 da manhã, estava na baia referente ao meu tempo que mandei para o qualificação no caso a G. A cerimônia de partida é de escorrer lágrimas, não lembro a ordem, mas toca a música do filme Carruagens de Fogo, o hino da África do Sul, a Shosholoza, melodia símbolo do povo sul-africano e da Comrades e, depois de um silêncio constrangedor, o galo canta três vezes. Pontualmente às 5h30 é dado o tiro de largada.

Nos primeiros quilômetros, tudo fica fácil, ainda escuro e com a temperatura amena. Porém, quando começam as subidas e a rodagem vai ficando pesada, percebe-se o grau de dificuldade que ainda tem pela frente. Vamos passando e lembrando das dicas no dia do passeio, para dar um incentivo, o pessoal da escola Ethembeni School se posiciona na estrada com a mão estendida para o corredor dar aquela batidinha e recompor o mínimo que seja de energia. O que mais fiquei admirado foi que durante todo o percurso tem gente para incentivar, eles armam acampamentos para assistir os atletas passarem, fazem churrasco, oferecem comidas e bebidas, é coisa de louco e os staffs são muito gentis e brincalhões.

O número do peito que é afixado nas costas e na frente tem o número 0, significa que se concluir nas 11:59:59, você será o mais novo Comrades, então muitos participantes vinham puxar assunto e dar uma força para continuar tocando o barco.

Juro que pensei em parar quando estava prá lá dos 60k, fiquei me questionando o porquê de tudo aquilo que
Bruce Fordyce nove vezes campeão
estava passando e você começa a ser traído pela sua mente e a fadiga se encarrega na desmotivação. Mas lembro bem que dei um grito "car@#$% tô na África e vou terminar por!@#$%¨" foi um espanto só na fisionomia do pessoal que estava no mesmo ritmo, acho que não entenderam nada.

A Comrades é 100% asfalto e os picos mais altos recebem o apelido de Big Fives (leão, leopardo, elefante africano, búfalo africano e o rinoceronte), só sei que quando chega na Polly Shortts são duas subidas e descidas que parecem as corcovas do camelo, pronto, só restam oito longos quilômetros. Quando estava a uns dois quilômetros, avistei três garotos na beira da estrada, quando passava por eles, o que estava no meio estendeu a mão para me cumprimentar, bati na mão dele e lhe dei os meus óculos escuros, ele ficou olhando e colocou em seu rosto e fez um sinal de positivo.
 
Já conseguia escutar o locutor no estádio de críquete de Pietermaritzburg, estava chegando, deu vontade de dar um sprint final, mas me contive, uma mulher começou a correr ao meu lado e perguntou como estava me sentindo, falei que cansado pra caramba, e ela completou a frase "como você está se sentindo sendo um Comrades?" aí quebrou as minhas pernas, fiquei todo arrepiado e fiquei com um nó na garganta inexplicável, ela deu os parabéns e continuou no ritmo dela. 

Quando entrei de vez no estádio e aquele corredor de pessoas me aplaudindo, percebi que havia valido a pena todo o esforço. Terminei em 11h15, peguei a minha medalha comemorativa da 90ª edição da Comrades e sentei em um gramado com outros muitos malucos, para absorver o meu feito. Quando entrei no ônibus para voltar para Durban, sentei no último banco, foi muito engraçado porque tinha uma senhora ao meu lado que ficava me olhando, resolvi cumprimentá-la, aí ela já puxou papo perguntando de onde era, se gostei da corrida e se voltaria, quando falei que era brasileiro, ela levantou e falou alto para todo o ônibus ouvir que era do Brasil os outros corredores vieram até onde estava sentado para me cumprimentar e falavam os seus países de origem: África do Sul, Quênia, Moçambique etc...

Quando cheguei ao hotel deitei na cama e resolvi que no próximo ano voltaria para o Back-to-Back. 
Voltei para o Brasil na terça 2 de junho com praticamente os mesmos corredores do vôo de ida. Um fato curioso o comandante nos parabenizou nos auto falantes da aeronave e a tripulação nos aplaudiu.